Humanismo e potes de chá

Fico muito triste quando vejo ateus brigando com outros ateus. Nós já somos uma minoria e sofremos discriminação, principalmente na forma de invisibilidade e ignorância pura do cidadão brasileiro médio. E além de tudo isso, encontram motivos para segregar ateus.

Ontem um post do Bule Voador causou bastante polêmica, tanto em seus comentários quanto dentro do grupo Livres Pensadores. O ponto principal da controvérsia é o seguinte: esse texto estaria discriminando ateus, dizendo que todos devem ser humanistas e os que não o são valem nada.

Primeiramente, gostaria de falar mais a fundo sobre o humanismo propriamente dito, o que curiosamente nunca fiz no meu blog HUMANISTA.

O Humanismo é uma corrente filosófica que propõe colocar o humano no centro das preocupações da própria humanidade e da filosofia em si. Este movimento filosófico se iniciou no Renascimento, quando o teocentrismo medieval foi substituído pelo antropocentrismo. Apesar de existirem humanistas religiosos e até teístas, a religião jamais pode se colocar como um obstáculo ao desenvolvimento da humanidade (até porque se isso acontecer, entramos em uma contradição).

Ser humanista é colocar a humanidade no centro de suas próprias preocupações, lutar para resolver seus problemas, confiar em seu potencial para superar, inovar, vencer obstáculos e florescer. Ajudar o próximo para que todos possamos crescer juntos em um lugar melhor, construir esse sonho. Orientar esse esforço com base em uma moral objetiva, que vise o bem-estar da própria humanidade e a minimização do sofrimento sem se prender a livros milenares violentos e tradições cruéis e sem sentido. Se você tem esses objetivos e luta para cumprí-los, você é humanista. Não importa como tentem te rotular dentro do humanismo, ou qual regra tentem colocar para você poder fazer parte de uma determinada associação humanista. No máximo, você não poderá fazer parte desse clubinho. Mas como já disse no meu post anterior, você realmente precisa pertencer ao clubinho? E se falam que você não pode entrar lá, que você não é um verdadeiro humanista, esse clubinho merece que você seja membro mesmo?

Uma boa representação do humanismo, como já comentei antes, é o Star Trek (a.k.a. Jornada nas Estrelas). A própria missão da Enterprise é humanista: “ir bravamente onde nenhum homem jamais esteve”. Essa vontade de conhecer, explorar, desbravar, é uma das maiores motivações dos humanistas. E ao longo dessa jornada, a tripulação espalha seu humanismo nos diversos planetas visitados, onde encontram toda sorte de povos venerando deuses falsos que trazem grandes danos a eles mesmos, os quais são sempre desmascarados por nossos intrépidos heróis e o povo é liberto da opressão.

Capitão James T. Kirk, um humanista popstar (para os nerds, claro)

Mas algum pessimista da humanidade pode dizer:

Os humanos são um câncer, são piores que o cocô de qualquer animal, por que lutar por essa raça nojenta?

E a minha resposta é simples. Realmente podemos ser sacos de estrume que destroem seu próprio lar e matam a si mesmos. Então, o que devemos fazer? Sentar e chorar? Nos extinguir?* Admitir nosso fracasso e deixar tudo do jeito que está? NÃO!!!

Mesmo se tudo isso for verdade (por um ponto de vista é, mas existem tantas outras formas de ver o mesmo problema…), nós ainda somos humanos e ainda temos vontade de ser pessoas boas e viver em um mundo bom. Então devemos lutar por nós mesmos, ajudar nossos semelhantes e construir uma realidade melhor onde nós mesmos vamos viver.

E assim, ao meu ver não existe motivo para alguém não ser humanista. Estou dizendo que todo mundo devia ser humanista? Não, de forma alguma. Só não entendo. Quem quiser me explicar, por favor! E quem não quiser tudo bem, só vou continuar sem entender por que você não é humanista mesmo e me sentindo no direito de dizer que não vejo motivos para alguém não ser humanista.

E agora, voltando ao post do Bule. A grande controvérsia foi sobre esse dizer que se você é ateu e não é humanista, você não é melhor que, digamos, um cristão humanista. E por um lado eu concordo. Ser ateu virou moda, tem muito ateu hoje que é só um adolescente revoltado (e isso inclui adolescentes de 30+ anos, o tipo mais ridículo que existe), mas que ainda sim é homofóbico, racista, xenofóbico, entre outros. E tem muito teísta dando um banho de tolerância e compreensão sobre esses tipinhos.

Mas chegou um ponto em que o texto deu uma derrapada, ao dizer que existem certos conceitos indiscutíveis. E pior, continuar afirmando isso nos comentários. Ficava uma situação bem esquisita, algo como “não é dogma nem doutrina, só tem certas coisas que nunca podem ser discutidas”. E esse assunto vou desenvolver melhor no próximo post.

 

VEJA O POST SEGUINTE AQUI!!!

 

* Esse movimento de extinção voluntária da humanidade é uma das coisas mais insanas que já vi na minha vida. Páreo duro com o veganismo, a cientologia e as teorias conspiratórias sobre Elvis e a ida do homem à Lua.

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3 pensamentos sobre “Humanismo e potes de chá

  1. felixmaranganha julho 12, 2011 às 22:16 Reply

    Comentei no texto errado, foi mals. Mandando pra cá o que joguei pra lá por engano.

    Meu caro, gostei de seu texto, e prontamente identifiquei o tal “clubinho”. Confesso que entrei por convite e, de cara, sofri o preconceito lá dentro, por um motivo muito simples: sou Budista, ou seja, um humanista religioso. Fui destratado por alguns membros e, fora dali, outros ateus começaram a simplesmente encher o saco tentando provar a todo custo e momento que o Budismo está errado por isso ou aquilo, atitude essa que, ao meu ver, não é muito diferente de evangélicos tentando me evangelizar. Depois dessa, cortei relações com o grupo e saí do tal clubinho de vez. Respeito alguns de seus membros, acho a proposta muito interessante, mas considero desnecessária essa tentativa de sempre convencer o outro (e agora propagandeiam uma tal de “desconversão”, muito parecido com a “conversão” dos evangélicos).

    Fiquei triste porque, como sou Budista, sou também ateu (na verdade, inclino-me ao agnosticismo), e minha linha budista (o Ch’an, ou Zen), não alega a existência de almas, pós-morte, deuses, sobrenatural ou salvação, e o misticismo é encarado apenas como perfeito autoconhecimento simbólico, e nada mais que isso, mas sofri destrato só pq o Budismo é rotulado no Ocidente como “religião”. Não adianta explicar que trata-se de uma filosofia ética, de um modo de ser, de uma postura mental ouo o escambau que for, quem me ataca é justamente o tipo de ateu adolescente revoltado que você cita no texto, que só está interessado na palavra “religião”.

    Nisso, resolvi centrar-me em pessoas que, mesmo sem usar o rótulo de humanista, agia como tal, e encontrei gente assim até mesmo entre os evangélicos. Acredito que o verdadeiro humanismo independe do credo ou do posicionamento metafisico. Humanismo é colocar o ser humano como prioridade (no caso do Budismo, colocamos essa preocupação tb sobre seres não humanos, mas priorizamos nossa manifestação atual, ou seja, os humanos).

    Digo que o Budismo é humanista por este preocupar-se com o ser humano (e estendendo a preocupação para outros seres), buscando resolver seus problemas, afirmando que o homem basta a si mesmo, que devemos todos nos ajudar no que pudermos, procurar uma moral pessoal que vise nada além da felicidade dos outros, e promover uma ética subjetiva (no sentido de que deve partir do sujeito, e não de regas externas). Como afirmei na Liga, não sou orientado no meu viver diário pela Razão (apesar de ser bastante racional), mas pela Verdade, pela Ética e pela Felicidade mútua, e creio que devem ser a prioridade do ser humano, sendo a razão mera ferramenta para garantir esses três elementos, assim como a ciência, a religião, a política ou as artes.

    Quanto à nossa extinção, o que nos resta é apenas aceitar que um dia acontecerá, que ela é inevitável, e tentar fomentar a felicidade, a ética e o respeito mútuo enquanto existirmos como espécie. Vejo a espécie humana como um grande indivíduo conflituoso que, como todos os indivíduos, morrerá. Mas isso não significa que, até lá, não possamos ser felizes e tratar de nosso semelhante (mesmo que estendamos esse “semelhante” ao crocodilo na beira do lago).

    Mesmo assim, o que importa não é a extensão máxima desse semelhante, mas que sua extensão mínima equivala a nada menos que a totalidade da espécie humana. Por isso me afastei do tal clubinho, pois se minha única diferença para um ateu humanista é o fato de meu norte não ser a razão, mas a práxis, e isso já se torna suficiente para a segregação em seio “humanista”, começo então a questionar as reais bases desse “humanismo”.

    Quanto à existência de conceitos indiscutíveis, creio que são praticamente inexistentes. O próprio Buda nos ensinou a pensar por nós mesmos. Não me abstenho a pensar a respeito nem mesmo de minhas crenças, não dou respostas prontas. Abaixo, uma citação do próprio Gautama sobre a necessidade de sermos autônomos:

    “Não se apresse em acreditar em nada, mesmo se estiver escrito nas escrituras sagradas. Não se apresse em acreditar em nada só porque um professor famoso que disse. Não acredite em nada apenas porque a maioria concordou que é a verdade. Não acredite em mim. Você deveria testar qualquer coisa que as pessoas dizem através de sua própria experiência antes de aceitar ou rejeitar algo.” (Siddartha Gautama, o Buddha, Kalama Sutra 17).

    O mesmo meu mestre me disse uma vez quando perguntei o que faria se descobrisse que o Budismo não era o correto para a minha vida. Ele simplesmente respondeu: “Deixe de ser preguiçoso e descubra sozinho”.

    Por isso, a base de minha própria filosofia é a de que não existem conceitos indiscutíveis pq toda a realidade ao nosso redor (o que inclui a lógica) é mera interpretação dos fatos, e não os fatos em si, o que já torna esses conceitos limitados e discutíveis. Como disse um professor meu: “a natureza não é logica, nosso modo de entender a natureza é que é lógico”.

    O Calango Abstrato: http://ocalangoastrato.blogspot.com

    • hollowfang julho 12, 2011 às 23:37 Reply

      Whoa, que comentário longo!

      Gostei da sua história. Parece que cada vez mais aparecem coisas erradas no tal “clubinho”. Bem que eu acho estranho humanistas que, por exemplo, escrotizam pessoas que vêm com ideias absurdas, quando o correto é atacar a ideia em si e não a pessoa.
      A rigor, o budismo é ateu sim. E como você diz que a sua vertente do budismo tem quase nada de metafísica, é absurdo alguém querer te atacar justamente por isso. Só falta depois dessa eles quererem aceitar os räelianos, que ao pé da letra são ateus mas acreditam piamente que as espécies da Terra foram criadas por alienígenas… (Sim, é um criacionismo ateísta. Eles são um páreo duro com a cientologia em termos de absurdo.)
      Quanto aos evangélicos, existem pessoas muito boas, verdadeiramente humanistas, e arrisco dizer que talvez até algum pastor de bom coração consiga fazer um trabalho verdadeiramente humanitário em sua própria igreja. Mas do que vemos da grande maioria deles, principalmente os neopentecostais dessas igrejas gigantescas, eles estão mais preocupados com o número de fiéis pagadores de dízimo que qualquer coisa. Primeiro você se converte, depois eles resolvem te ajudar. É um comportamento que você nunca vê em um centro espírita, por exemplo, onde eles ajudam todos os necessitados que eles conseguem. Católicos, evangélicos, muçulmanos, ateus, não importa. Isso é suficiente para ser humanista, e o resto não pode invalidar.
      E quanto ao seu uso da razão, é algo que eu ainda não abordei aqui no blog mas já vou dizer: eu concordo. De que adianta ter toda a razão do mundo para encontrar o conhecimento válido se o prazer e a felicidade no fim das contas pertencem ao campo da emoção? A razão, como você mesmo disse, é uma ferramenta e mais nada.

      E sobre encontrar a verdade, como eu já deixei um gancho aqui, vai ter um post sobre isso. Amanhã (13/07), às 10h. Fique ligado!

  2. […] meu post anterior eu deixei um gancho para o seguinte assunto: ideias indiscutíveis. Este post vai ser rápido, não […]

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