Alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias

E aí pessoal, vamos falar de epistemologia? Acredito que esse é um assunto sempre bom de se dar alguns toques, juntamente com falácias.

Muitas vezes as pessoas não entendem direito o que pode ser ou não uma prova. E um dos maiores motivos para isso é a falta de conhecimentos estatísticos, que não permite ir muito além do senso comum.

Conjecturemos: suponhamos que um marinheiro relate ter visto o Kraken no Pacífico Norte. Após uma semana, surgem mais 100 relatos similares, juntamente com uma suposta fotografia. Devemos acreditar que o Kraken existe? Pode ser tentador dizer diferente, mas a resposta correta é: não.

Analisemos a situação. 100 relatos em uma semana parece bastante coisa para uma pessoa destreinada. Mas qual é o tráfego diário de navios pelo Pacífico Norte? Eu infelizmente não consegui encontrar dados sobre isso, mas considerando que essa é a rota entre Estados Unidos e Japão, tenho certeza de que passam por lá mais de 100 navios por dia.

Ah, mas tinha fotos! Aconteceu!

Ah, é? Então nem precisava, já provamos a existência do Kraken faz tempo! Olha aqui:

Então o que seria uma “prova extraordinária”?

Bom, se tivéssemos 100 relatos no mesmo dia, talvez já fosse algo a se considerar. Não sei, precisaria saber o quanto isso representa do tráfego diário da área. Se esses relatos se mantivessem consistentes e constantes, acompanhados de perdas nas frotas imagens que passassem em testes de autenticidade, talvez já fosse algo digno de uma investigação. Outra evidência forte seria a ocorrência de vários relatos simultâneos em ecossistemas marinhos semelhantes, ou de alguma forma conectados (por exemplo, adjacentes a uma mesma corrente marítima). E claro, sempre temos que descartar avistamentos de polvos grandes ou outros animais que pudessem ser confundidos com o Kraken, e é essencial levar em conta o fato de que o alto-mar, especialmente em navios cargueiros realizando viagens muito longas, não é o mais agradável dos ambientes, e as chances de alucinação, inclusive coletiva, da tripulação são consideráveis.

 

Essa é uma área que abre espaço para muito charlatanismo. Quem não se lembra do icônico pastor Josué Yrion?

Segundo a notícia do Washington Post apresentada no vídeo, 700 jovens no Japão foram hospitalizados em um dia por jogar um Nintendo assistir um episódio de Poken Monster Pokemon. Sob um olhar destreinado, parece coincidência demais. E de fato não foi mera coincidência, mas com certeza tem muita gente comprando rapidinho a hipótese do chifronésio. Temos diante de nós duas hipóteses:

  1. O episódio apresentava certos efeitos de cores que causavam reações adversas nos expectadores
  2. DEMÔNIO!!!

Lembrando que muitos jogos, filmes e desenhos animados inclusive trazem em suas embalagens avisos para portadores de epilepsia, podemos facilmente aplicar a Navalha de Ockham (falo mais sobre isso depois, é o “sucessor espiritual” deste post) e descartar a hipótese 2. Viu só? Não doeu nem arrancou pedaço!

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