Liberdade existe?

Talvez não esteja muito claro aqui ainda, mas eu sou contra o libertarianismo, apesar de ser completamente a favor das liberdades individuais. E ultimamente fortaleci minha oposição ao libertarianismo quando tive uma conversa interessante sobre o próprio sentido da liberdade.

Liberdade deve ser uma das coisas mais difíceis de definir, ali com amor e felicidade. Mas estou chegando a uma conclusão: liberdade absoluta, assim como felicidade absoluta, é algo que não existe. Não na nossa realidade, pelo menos.

Tome a situação onde se poderia estar o mais próximo possível da liberdade total: sozinho na selva. Mesmo assim não existe liberdade total. Por que? É fácil de entender. Você pode, por exemplo, decidir que nunca mais vai se preocupar com comida e com predadores, e vai ficar o resto da sua vida tomando sol e mergulhando na cachoeira? Não, você não pode. Ou melhor, até pode, mas é um estilo de vida inviável.

E vivendo em sociedade, a busca pela liberdade fica ainda mais difícil, porque você tem que conviver com outras pessoas. E como dizia Sartre, “o inferno são os outros”. Você não vive em uma bolha: suas ações afetam outras pessoas. Qualquer ação. E assim temos paradoxos bastante interessantes sobre liberdade.

Imagine que todas as pessoas pudessem andar nuas. Haveria mais liberdade, certo? Certo. Ou não. Você não teria mais a liberdade de não ver pessoas nuas, por exemplo (existem pessoas que gostam de desfrutar dessa liberdade, eu incluso em boa parte das situações).

E por causa desse paradoxo temos que fazer certas concessões de nossa liberdade para termos uma convivência pacífica (o chamado contrato social, pesadelo de muitos libertários que “não assinaram contrato algum” mas os quais acredito que se arrependeriam de revogá-lo por completo se assim pudessem). Chegamos a dois pontos básicos que norteiam a noção de liberdade na sociedade moderna:

1 – A minha liberdade termina onde começa a sua.

2 – Liberdade prescreve responsabilidade.

Não é perfeito, ainda é uma definição vaga e existe muita controvérsia sobre onde começa a liberdade do próximo, ou ao tentar visualizar claramente a linha tênue entre liberdade e irresponsabilidade (e mais, até onde temos ou não o direito de ser irresponsáveis), mas na minha opinião é o melhor que temos por enquanto.

E por isso eu leio muito mas ainda não consigo formular uma opinião, por exemplo, sobre o humor precisar ter limites ou não. Até onde os impactos de um humor preconceituoso são reais? Quais as discriminações concretas que se escondem sob o manto do “é piada, não levem a sério”? Ainda estou bem incerto quanto a isso.

 

Mas uma coisa é certa: o único lugar onde existe liberdade de verdade é naquela área de preparação da Matrix. Se você estiver sozinho, claro.

Sinto muito, jogadores de Minecraft, nem aí vocês tem liberdade total!

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Um pensamento sobre “Liberdade existe?

  1. Homero maio 22, 2012 às 21:34 Reply

    Olá

    Muito bom, e muito interessante análise. Acho que o problema em descobrir os limites, por exemplo com o humor, deriva do fato de que essas questões são baseadas em conceitos por demais subjetivos e que tem seus alcances e pontos de contato em degrade, e não em linhas precisas ou chaves de liga/desliga.

    Aliás, me parece a razão de muitos dos problemas de definir o alcance de termos e conceitos: a grande maioria tem áreas de degrade.

    Como “vida humana”, quando começa? Não começa, ou melhor começa durante um degrade, a gestação, e não em uma chave simples. Podemos encontrar um momento em que claramente não há uma “vida humana” envolvida, como um zigoto ou mórula, e outro em que claramente há, um feto de quase 9 meses. Mas não uma linha em que separe ambos os estados.

    Liberdade é outro conceito complicado pelas áreas de degrade, sendo que podemos encontrar um evento claramente dentro dos limites do aceitável em termos de liberdade individual, e outro claramente fora. Mas não há uma área em que possamos “cortar” exatamente quando começa um e termina o outro.

    É a diferença entre escrever um artigo com uma opinião, mesmo bastante crítica, sobre algo, e gritar fogo em teatro lotado. De um lado, liberdade de expressão, de outro conduta criminosa. E entre elas, o degrade cinza que nos dificulta a vida.:-)

    Um abraço.

    Homero

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