Considerações sobre a educação brasileira (Parte 1)

Ultimamente houve vários acontecimentos a respeito da educação brasileira, principalmente em relação à nova lei de ações afirmativas no processo seletivo das universidades. Isso me levou a uma série de reflexões sobre a educação. Demorei muito para escrever este post, mas acho que mesmo assim é válido.

Parte 1: Por que sou a favor do sistema de cotas

Sempre que abordamos esse tema, devemos lembrar que o preconceito surge do desconhecimento. Quando não conhecemos determinado grupo da sociedade, automaticamente preenchemos essa lacuna com o senso comum veiculado no nosso meio. Assim, somos levados de forma inconsciente a acreditar que negros provavelmente são mais pobres, mais propensos à marginalidade e por isso menos confiáveis ou desejáveis que brancos. No momento em que existe a convivência entre negros e brancos, há a possibilidade de conhecimento entre as duas populações e consequentemente a quebra de mitos a respeito do antes desconhecido.

Sendo assim, isso justificaria um critério racial, e não apenas social. E negar a existência de raças (um critério fictício do ponto de vista objetivo, mas que infelizmente apresenta-se como fato social) não resolve o problema, apenas joga-o para baixo do tapete. Forçar essa convivência entre as raças é a forma de desconstruir a distinção racial dentro da nossa sociedade.

É fato que negros ganham menos que brancos em cargos equivalentes no mercado de trabalho. Brancos são automaticamente vistos como mais qualificados e com melhores condições de vida. Negros e pardos precisam provar o contrário quando a situação se inverte, porque a norma dentro da nossa sociedade é apresentar o negro e o pardo na base da pirâmide social. Oferecendo melhores condições de instrução para o negro e o pardo, podemos vê-los em cargos melhores no mercado de trabalho, competindo com brancos e desconstruindo o mito do negro subalterno. Este é um processo de longo prazo, e é previsível que os primeiros egressos do sistema de cotas sofrerão com salários menores e planos de carreira menos favoráveis em relação aos seus colegas brancos.

Um detalhe muito importante a ser lembrado na redação do novo projeto de lei do sistema de cotas é o fato delas serem um misto de raciais e sociais. Em primeiro lugar, é necessário ter cursado o ensino médio em colégio público: os negros ricos estão assim automaticamente excluídos do processo. Segundo, o branco pobre não está excluído: metade das vagas do programa funciona em um sistema livre de critérios raciais, tendo como pré-requisito apenas o ensino público e assim contemplando também os brancos pobres.

Mesmo assim, ainda é válida uma crítica: de que esse sistema não resolverá de fato o problema da desigualdade e que o investimento em educação básica é imprescindível. É bastante possível que o sistema de cotas tenha motivação eleitoreira e encubra a falta de investimentos em educação. Por esse motivo, a pressão popular deve ser a favor da educação básica, e não contra o sistema de cotas.

Por último, é importante lembrar que a experiência com o sistema de cotas vem se mostrando positiva, visto que os alunos cotistas apresentam desempenho igual ou superior ao de seus colegas não-cotistas. E isso já deixa o gancho para a parte 2 da minha análise sobre a educação.

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Um pensamento sobre “Considerações sobre a educação brasileira (Parte 1)

  1. […] que escrevi meus posts sobre educação continuei me envolvendo em discussões sobre cotas, e me mostraram um ponto bastante […]

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