Considerações sobre a educação brasileira (Parte 2)

Ao final da parte anterior, já havia deixado um gancho para o restante da avaliação: há algo muito errado no ensino médio brasileiro, tanto público quando privado. E está relacionado ao próprio processo seletivo da universidade.

Parte 2: o que está errado no ensino médio brasileiro

 

Tratando-se de ensino médio no Brasil, temos basicamente três tipos de colégios: públicos comuns, técnicos/militares e particulares.

Estamos carecas de saber que os colégios públicos comuns não recebem investimentos adequados, possuem professores mal pagos, desmotivados e despreparados, falta investimento e por isso não conseguem oferecer educação de qualidade. Mas pouco paramos para pensar que os colégios particulares não cumprem o papel que deveriam.

Cada vez mais, vemos dois processos acontecendo no ensino médio particular: o método de ensino inteiramente voltado para o vestibular e a queda no nível de exigência. Ambos decorrem inteiramente de questões mercadológicas.

Podemos perceber que atualmente os colégios particulares, principalmente aqueles que também oferecem curso pré-vestibular, vêm formando máquinas de fazer vestibular: não há muita preocupação com a formação do aluno como cidadão com pensamento crítico, e nem mesmo com a sua capacidade de sair da universidade. Tanto é que não se observa diferenças significativas entre o desempenho de alunos cotistas e não-cotistas na universidade. O aluno de colégio particular é preparado apenas para passar no vestibular.

Essa falta de preparo é agravada pelo segundo processo. Um colégio particular nada mais é que uma empresa, e os alunos são seus clientes. Como tal, desejam se sentir satisfeitos pelo serviço que estão comprando, e muitas vezes isso significa culpar o professor pelo seu mau desempenho. E como toda empresa empenhada em agradar seu cliente para ter sucesso no mercado, esse colégio tomará medidas para resolver o problema, que muitas vezes consistem em trocar o professor ou “ajudar” o aluno a passar.

O mesmo problema aparece em boa parte das universidades particulares, que também têm clientes antes de alunos e assim não têm aval para avaliá-los de forma rígida. E isso não ocorre nas universidades públicas, que não precisam atrair mais alunos (pelo contrário, já têm procura demais) e têm compromisso com a qualidade do ensino e da produção acadêmica, em busca principalmente de reconhecimento por órgãos de apoio a pesquisa e de internacionalização. Em um ambiente desses, o aluno de colégio particular que foi preparado por três anos para fazer uma única prova não tem o preparo adequado para enfrentar a exigência da universidade.

Considerando o quadro do ensino médio particular, restam agora os colégios técnicos e militares públicos. Estes estão em situação muito semelhante às universidades, não tendo interesse no mercado, contando com procura excessiva e preocupados apenas com a qualidade do ensino, principalmente em colégios ligados a universidades. Pode-se dizer que oferecem um ensino apenas voltado para a formação de profissionais e não de cidadãos, mas ao menos desenvolvem a necessidade de esforço e dedicação nos alunos, preparando-os para situações reais onde precisarão de estudo e autodidatismo, tanto na universidade quanto no trabalho.

Assim, podemos perceber nessa situação que livre mercado nem sempre é a solução para a melhoria dos serviços oferecidos pelo mercado. Embora possa ser dito que a população deseja uma educação que coloque seus alunos dentro da universidade, será correto continuar alimentando esse sistema onde o sucesso é visto como entrar em uma universidade, mesmo que não se saiba como sair dela, onde existe toda uma indústria dedicada a quebrar o método de avaliação das universidade e transformá-lo em uma série de truques resolvidos de forma mecânica?

A universidade faz uma prova para selecionar o aluno, o colégio particular faz máquinas para resolver essa prova e continuamos sem educação de qualidade.

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Um pensamento sobre “Considerações sobre a educação brasileira (Parte 2)

  1. […] que escrevi meus posts sobre educação continuei me envolvendo em discussões sobre cotas, e me mostraram um ponto bastante importante em […]

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