Anarcocapitalismo é pior que crackonha, parte 1: pelo direito de dirigir bêbado e defender ideias bêbadas

Imagem da Anarcomiguxos. Todas as falas dos balões foram tiradas do artigo do IMB, sem exagero!

Imagem da Anarcomiguxos. Todas as falas dos balões foram tiradas do artigo do IMB, sem exagero!

O artigo do IMB que me inspirou a fazer a série foi esse aqui. Eu já tinha visto em linhas gerais o argumento a favor da legalização  do ato de dirigir bêbado, mas não me dei ao trabalho de ver tudo, coisa que só fiz hoje. Estou realmente impressionado! Alguns pontos do artigo que acho importante destacar:

A esmagadora maioria dos acidentes relacionados à direção embriagada envolve réus contumazes com um nível de álcool no sangue duas vezes maior do que aquela. Se o padrão de 0,1 não os detém, um padrão mais baixo também não logrará êxito.

Ok, este é um ponto bom. Concordo que, se os acidentes são causados por níveis de álcool no sangue já superiores ao que constava na lei anterior e esta não foi eficaz, não parece lógico a primeira vista criar uma lei mais rigorosa ainda. A forma que me parece mais eficaz para controlar esse problema por uma lei seria fiscalização eficiente e uma boa aplicação da lei, de fato punindo as infrações. Afinal, é uma ideia bastante consolidada no Direito que a certeza da aplicação da lei influencia mais que a severidade da pena no combate a criminalidade.

Mas existe um mérito nessa medida: é sabido que, após consumir um pouco de álcool, a dificuldade para controlar o consumo aumenta. Então seria uma medida de segurança impedir o consumo desde o início.

Mas há um ponto mais importante. O que exatamente está sendo criminalizado? Não é a falta de perícia ao volante. Não é a destruição da propriedade. Não é o extermínio de uma vida humana por causa de um comportamento imprudente. O que está sendo criminalizado é você ter a substância errada no seu sangue. No entanto, é de fato possível ter essa substância no seu sangue, mesmo ao dirigir, e não cometer nada que seja sequer semelhante ao que tradicionalmente se considera um crime.

E esse é o problema mais grave: me assusta a miopia do autor, a falta de visão para perceber que certas perdas podem ser impedidos por medidas preemptivas (aliás, uma lição que a história, principalmente militar e política, nos ensina em abundância). Por que temos que esperar um acidente acontecer para tomar uma medida?

É por isso que a campanha contra a perseguição racial é intuitivamente plausível para muitos: certamente uma pessoa não deveria ser perseguida somente porque alguns grupos demográficos apresentam uma taxa de criminalidade maior do que outros. O governo deveria estar impedindo e punindo crimes em si, não probabilidades e propensões. Da mesma forma, não deveria haver essa perseguição a motoristas, cuja idéia assumida é a de que só porque uma pessoa tomou alguns goles ela automaticamente passa a ser um perigo.

De fato, essa perseguição a motoristas é pior do que a perseguição racial, porque esta última apenas sugere que a polícia está mais vigilante, e não que ela esteja necessariamente criminalizando toda uma raça. Apesar da propaganda, o que está sendo criminalizado no caso da direção embriagada não é a probabilidade de a pessoa dirigindo se envolver em um acidente, mas, sim, a questão do teor de álcool no sangue. Um motorista bêbado é humilhado e destruído mesmo quando ele não cometeu dano algum.

Este trecho me dá nojo. Comparar a “””””perseguição aos motoristas””””” com racismo é de uma desonestidade impressionante. Alguém escolhe a raça? Existe ALGUMA relação entre a cor de pele e a chance de se cometer um crime? Alguma, por menor que seja? Resumindo, essa comparação faz algum sentido? É tão classe média sofre que eu fico pensando como alguém escreve isso e não ri ou sente vergonha.

E não estamos criminalizando o teor de álcool no sangue. Você pode trocar toda a água do seu sangue por álcool, isso é problema seu e tem nada a ver com a lei. O que você não pode é estar alcoolizado e decidir operar um automóvel, uma arma, uma serra elétrica, um guindaste, uma retroescavadeira ou qualquer outro equipamento que pode causar acidentes graves.

Obviamente, a execução da lei é um problema sério. Um número considerável de pessoas saindo de um bar ou de um restaurante provavelmente seria classificado como motoristas embriagados. Mas não há como a polícia saber, a menos que eles desconfiem de um carro que esteja em zigue-zague ou flagrem manobras imprudentes. Mas aí a questão muda: por que não multar o motorista apenas pela manobra temerária e deixar o álcool de fora? Por que não?

Aqui o texto quase propõe uma alternativa plausível, mas muito inocente. Por acaso você consegue sempre VER quando uma pessoa não está em condições de dirigir? Mas vou ser benevolente e estender o argumento: pode ser que um teste de coordenação motora seja mais interessante que simplesmente um exame de concentração de álcool no sangue. E aí eu realmente não sei o que seria melhor.

Existem muitos fatores que fazem com que uma pessoa esteja dirigindo deficientemente. Ela pode estar com os músculos doloridos após uma sessão de levantamento de peso e apresentar reações mais lentas. Ela pode estar sonolenta. Ela pode estar de mau humor, ou irritada por ter brigado com o cônjuge. Será que o governo deveria ministrar testes de irritação, testes de cansaço, ou testes de dor muscular? Esse é o próximo passo, e não se surpreenda quando o Congresso começar a estudar essa questão.

Esse nós temos que ir por partes, porque tem uma coisa importante: cansaço. Segundo o Programa Volvo de Segurança no Trânsito, fadiga e sono são responsáveis por 60% dos acidentes de trânsito. Já me lembro de ter visto campanhas incentivando o descanso antes de dirigir, mas não sei a quantas anda e talvez seja importante reforçar isso. No entanto, essa é uma questão um pouco mais delicada: ninguém pode escolher quando está cansado, nem sempre pode descansar antes de ir embora, pedir para outra pessoa dirigir ou deixar o carro no local e ir embora de outro jeito. Mas escolher não beber você pode. E mau humor é pior ainda, porque além de você não poder escolher isso não passa só esperando.

O resto do artigo é só mais do mesmo, e mais provas de que o autor nunca ouviu falar em falsa simetria.

E eu digo que uma coisa dessas é pior que crackonha porque é um discurso que parece sólido a primeira vista, parece que levanta pontos interessantes, se você ler distraído ou sem analisar mais a fundo você cai nessa.

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2 pensamentos sobre “Anarcocapitalismo é pior que crackonha, parte 1: pelo direito de dirigir bêbado e defender ideias bêbadas

  1. Piracetam dezembro 20, 2012 às 13:05 Reply

    É uma substância natural derivada da fermentação de carboidratos (açúcar e farinha de cereais). Embora muitas pessoas acreditem seja estimulante, é um droga depressora do Sistema Nervoso. Quando ingerido em doses pequenas, o seu efeito é tranqüilizante, afetando o autocontrole. Em doses maiores, diminui os sentidos e altera a coordenação motora, o juízo e a memória. Bebido em doses altas, e por tempo prolongado, pode danificar o fígado, o coração e o cérebro, apesar de existirem fatores físicos, mentais e ambientais que produzem diferentes reações nas pessoas. Os motivos porque as pessoas bebem são os mais diversos: culturais, pessoais, religiosos ou sociais – os mais freqüentes. Em reuniões ou festas, geralmente, todos bebem para relaxar ou participar mais de um grupo. Já outros bebem para esquecer as preocupações, fugir às tensões. Mesmo que a ingestão do álcool seja moderada, ela pode ser perigosa. Pois é o bastante para poder provocar acidentes, como os de trânsito, por exemplo.

  2. Thiago RV abril 7, 2014 às 23:52 Reply

    Darrrrrr anarcocapitalismo é ausência de Estado e não de leis! ……

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