O proletariado dos anos 10?

Essa é uma reflexão que eu tive há algum tempo e pensei em fazer um post, mas acabei adiando bastante. Cheguei a conclusão de que a nossa cultura vem adotando uma nova organização do trabalho, principalmente o intelectual, e o capital vem abraçando essa ideia: é o trabalhador workaholic.

Tenho percebido que o workaholic vem sendo visto como o modelo de profissional dedicado que leva seu trabalho a sério, e quem não faz isso é visto como displicente e sem profissionalismo. Para ser visto como um profissional sério, você precisa estar sempre pronto para aceitar horas extras e levar trabalho para casa de bom grado, como se não tivesse mais ocupação alguma.

workaholic

Esse conceito parece bastante válido, intuitivo e até um tanto óbvio, principalmente quando se trabalha com produção ou desenvolvimento: um profissional que aceita produzir mais e dispõe seu tempo para isso é mais dedicado e comprometido com seu trabalho do que aquele que não está disposto a sacrificar seu tempo livre para isso.

Obviamente isso se encaixa perfeitamente com os interesses do capital, que aos poucos vai transformando o trabalho extra em “nada mais que a sua obrigação”, integralizando-o na jornada de trabalho básica. É um trabalho muito difícil de ser quantificado, e por isso difícil de ser passível de cobrança de horas extras e pouco observado pela lei, pelo pouco que sei (e corrijam-me se eu estiver errado!). Mas mesmo com uma cobrança rígida de horas extras a apologia ao workaholic se mostra bastante vantajosa: o trabalhador aceita de bom grado, considera-se satisfeito e cumprindo sua função na vida, acredita piamente que aquele trabalho o engrandece como pessoa e dá significado a sua existência. Essa realidade vai se tornando aos poucos a ordem natural das coisas no senso comum.

Para o bem da argumentação, vamos supor que o aumento da produtividade justifica tudo e que essa mudança cultural é positiva e desejável. Isso tem uma consequência que gera resultados no mínimo bizarros: quem não é workaholic não leva seu trabalho a sério ou é incompetente. Ora, o que impede que uma pessoa se dedique completamente ao trabalho 8 horas por dia, 5 dias por semana, mas se recuse a fazer mais que isso? Ou que essa pessoa seja competente e faça em 8 horas o que outros fariam em 12?

E saindo das profissões de produção e desenvolvimento: esse tipo de julgamento começa a infectar a educação. Foi na minha própria faculdade que percebi isso pela primeira vez, na verdade, quando a sala não levava a sério um professor que, apesar de lecionar bem e ser capaz de passar o conteúdo a tempo, não era muito rigoroso com os horários de entrada e saída e fazia aulas mais curtas que o normal. Muitos começaram a achar que não precisava assistir às aulas ou que o professor não reprovaria, e todas essas pessoas estavam erradas ao final do semestre.

E então me pergunto, o quão imbecil pode ser um julgamento desses? Quantas pessoas habilidosas, talentosas e fazendo um trabalho sério não acabam sendo excluídas por um sistema que prefere um tipo de trabalhador? Quais atitudes contraproducentes estão sendo reproduzidas por essa lógica? Por exemplo, aulas mais curtas, menos exaustivas (afinal de contas, trata-se do ambiente universitário, é esperada a leitura dos alunos para o aproveitamento básico do curso) e mais espaçadas não podem se mostrar mais produtivas que a grade regular? Lembro também de um estudo que vi na Superinteressante uma vez e infelizmente não consegui mais achar indicando que pessoas consideradas preguiçosas mas criativas poderiam desempenhar bem cargos de liderança, porque buscariam uma forma de minimizar o trabalho e o tornariam mais eficiente.

Na minha opinião, isso também revela uma característica um tanto triste que ainda não superamos: o trabalho é a vida da pessoa. Parece que para muitos não existe algo além disso, não existe desenvolvimento pessoal que não seja, direta ou indiretamente, para trabalhar melhor, não existe espaço para se dedicar ao resto. Qual será o futuro do trabalho?

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