Anarcocapitalismo é pior que crackonha, parte 2: Direito a saúde é escravidão

Talvez vocês tenham visto um certo vídeo que está rodando por aí. Este não é do Instituto Mises Brasil, e sim da Libertarianismo Plus, outra página anarcocapitalista, que tem bastante material no YouTube. O vídeo problemático agora é esse aqui:

Fiquei impressionado em como as noções de direitos conseguem ser tão dogmáticas e restritas. Como esse discurso consegue ser tão desonesto com a noção de direitos e de trabalho.

Fazendo uma análise completa como fiz antes, vou começar pela própria descrição que a Libertarianismo Plus colocou:

Muitos Americanos vêem, equivocadamente, a Saúde como um direito. Saúde não é um direito porque requer que algo seja tirado de uma outra pessoa.

Usando uma ótica bastante simplista e nos atendo à máxima “minha liberdade termina onde a sua começa”, podemos dizer que TODO direito retira algo de uma outra pessoa. O direito à vida retira o direito de outra pessoa tirar vidas. A instituição da propriedade privada retira o direito que todos teoricamente teriam à totalidade das terras e dos recursos existentes. O direito da busca da felicidade retira o direito de impedir a busca da felicidade alheia. Logo na descrição o vídeo já trás uma definição BEM esquisita de direito…

Agora, o vídeo propriamente dito:

A questão nas entrelinhas é que muitos americanos vêem saúde como um direito humano. E não é!

(…) as pessoas não têm um direito à saúde assim como não temos direito à educação, alimento, abrigo e roupas.

Não é? Acho que eu vi algo um pouco diferente em um documento chamado DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS…

Artigo XXV

§ 1º Todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em casos de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios subsistência e circunstâncias fora de seu controle.

Mas provavelmente eles responderiam dizendo que a declaração foi escrita pela ONU, que é um órgão estatista coercitivo e que o documento deve ser jogado fora. Então podemos responder de outra forma: um direito inalienável de todo indivíduo é o direito à vida. Certos bens e serviços são necessários para a vida, logo o direito à vida implica em direito a saúde e alimentação, entre outros. Negar isso é ter uma visão muito restrita e cínica do que significa direito à vida. É prender-se a uma visão de 250 anos atrás que resume o direito à vida ao direito de não ser morto por outra pessoa.

Um direito não consiste em algo que as pessoas querem muito.

Concordo. Um direito consiste em algo que as pessoas decidem ser necessário para um mínimo de decência possível. E não é “querer muito” que está em questão quando se fala de saúde pública, e sim a noção de que esse serviço é essencial para que todos possam viver com um mínimo de dignidade. E mais, é uma adequação, uma extensão de um direito já existente (e defendido pela autora do vídeo) que foi percebido como insuficiente da forma que foi inicialmente proposto.

Aliás, estou percebendo enquanto escrevo que é bem difícil definir genericamente o que é um direito…

[O direito à vida, liberdade e busca pela felicidade] não significa que as pessoas devam ser forçadas a melhorar nossas vidas ou nos fazer feliz.

Melhorar? Não estamos falando em melhorar, estamos falando em POSSIBILITAR! E quando EXISTEM recursos para isso, é de fato ético negá-los a uma pessoa e deixá-la morrer só porque esses recursos não pertencem a ela? Na minha opinião, quando a sociedade como um todo possui esses recursos e nega a uma pessoa, está participando de sua morte de forma praticamente indistinguível de um assassinato (digo isso para sociedades, julgar indivíduos desta forma já me parece algo mais delicado).

Dizer que temos direito à saúde é dizer que médicos têm obrigação de nos servir, querendo ou não. Nós não temos direito ao tempo ou aos serviços de alguém. A escravidão já foi abolida há mais de um século atrás. Por que é que muita gente pensa que pode forçar os outros a trabalhar para eles?

Pronto, agora chegou o ponto mais nojento e desonesto do vídeo inteiro. Estou impressionado: alguém conseguiu comparar um serviço de um profissional REMUNERADO, que ESCOLHEU desempenhar sua profissão e ocupar o cargo que ocupa, com TRABALHO ESCRAVO!!! Sério, tá difícil falar o quanto de groselha tem nesse trecho! Acho que nem tem como analisar esse trecho como eu fiz com o resto.

Mas vou dizer, estou até feliz com este vídeo. Ele mostrou que grande maioria das pessoas que assistiram REJEITAM esse tipo de idiotice, não têm uma visão tão restrita sobre direito à vida, percebem as falácias que foram cometidas. E o mais importante de tudo, NINGUÉM levou a sério a parte do trabalho escravo. Nem quem defendeu a autora.

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2 pensamentos sobre “Anarcocapitalismo é pior que crackonha, parte 2: Direito a saúde é escravidão

  1. lozruk janeiro 3, 2013 às 16:49 Reply

    Lixo

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