A falácia da feminista escocesa

Estava refletindo esses dias sobre um problema bastante recorrente na militância feminista: a acusação de falácia do escocês. Já existem textos muito bons sobre o assunto, recomendo este da Åsa Heuser, mas eu gostaria de fazer alguns complementos aqui.

Corro o risco de estar definindo uma luta que não é exatamente minha, então vou tomar cuidado redobrado para não fazer mansplaining e encobrir as mulheres, as verdadeiras protagonistas do feminismo. Prosseguindo então.

Para lidar adequadamente com a falácia do escocês, é importante definir o que estamos falando, e esse é um ponto bastante delicado, visto a quantidade de desinformação corrente sobre o feminismo e muitas vezes a falta de uma definição formal. E aqui vou deixar a minha definição: feminismo é a luta pela plena igualdade, que implica no fim dos restritivos papéis de gênero e quaisquer sistemas que busquem moldar ou restringir a identidade de gênero. Essas metas são o caminho para de fato atingir a emancipação de todos os grupos: mulheres, transsexuais, intersexo etc (e desnecessário falar dos homens, já temos toda sorte de reacionários antifeministas implicando com isso a cada segundo e até mesmo procurando problemas contra os quais ninguém se manifestava). Ao meu ver, essa é a única forma de solucionar os problemas estruturais de gênero na nossa sociedade e não substituí-los por outros problemas. O matriarcado, por exemplo, seria misândrico e muito provavelmente continuaria tão cissexista quanto o patriarcado, e o FEMEN é um bom exemplo disso.

Tendo essa definição em mãos, podemos finalmente dizer o que é ser feminista. E assim podemos colocar fim nas acusações de falácia do escocês que abundam em meios antifeministas. O maior problema nisso tudo é o desentendimento de definições: a maior parte do público leigo considera feminismo qualquer forma de empoderamento feminino, e podem acabar incluindo atitudes extremamente equivocadas, muitas vezes cissexistas e até mesmo… machistas! Vide a imagem abaixo, que para o público leigo pode ser considerada feminismo:

"Isso não é feminismo. Isso é tentar - mal e porcamente -  ’dar o troco’ no machismo. Feminismo é outra coisa." - Isso Não É Feminismo

“Isso não é feminismo. Isso é tentar – mal e porcamente – ‘dar o troco’ no machismo. Feminismo é outra coisa.” – Isso Não É Feminismo

Como já fiz outra vez, podemos estabelecer novamente um paralelo entre feminismo e socialismo: os teóricos marxistas, inclusive o próprio Marx, estabelecem como “socialismo vulgar” tentativas socialistas que não resolvem os problemas estruturais do capital. Por exemplo, se simplesmente tirarmos dinheiro dos ricos e dermos para os pobres, tornando todas as riquezas iguais do dia para a noite, isso não seria suficiente para solucionar o problema da pobreza. Um capitalista tem o conhecimento da acumulação de capital e administração de riqueza, enquanto um proletário ou mesmo um pequeno burguês nunca teve contato com isso. O proletário, por estar muito tempo em uma situação de pobreza, acabaria muitas vezes gastando muito para satisfazer suas necessidades e acabaria por fim devolvendo todo esse dinheiro ao burguês, voltando para a situação original e tendo que se subordinar às mesmas relações de trabalho, reconstruindo completamente o modo de produção capitalista, talvez mudando ligeiramente os proprietários do capital.

De forma parecida, um projeto de “feminismo vulgar”, digamos, que apenas reforçasse noções como “nós fazemos tudo o que os homens fazem, só que de salto alto e maquiagem” e perpetuasse estereótipos de gênero, apenas invertendo o prisma e colocando o homem em posição de inferioridade, poderia até solucionar certos problemas da auto-estima feminina e tirar dos homens o poder sobre o corpo feminino, mas ainda conservaria certas noções do que faz um “homem de verdade” e uma “mulher de verdade”, que continuam sendo conceitos opressivos. Poderíamos ainda ter nesse sistema uma grande rivalidade entre mulheres, haveria o controle do corpo feminino pelas próprias mulheres, julgando umas as outras (afinal de contas, homens são julgados uns pelos outros na sociedade machista), e a questão trans continuaria sem solução.

Erick Calistrato, um feminista escocês de verdade (Não entendeu? Clique na imagem!)

Com tudo isso, podemos dar uma conclusão: se não faz parte dessa definição do “feminismo real”, não é feminista. Podemos falar isso livremente sem ser falacioso. Mas sem essa discussão toda pode soar muito falacioso, então podemos fazer uma analogia bem simples: se uma pessoa se declara ateia mas diz que Deus existe, é falácia do escocês dizer que essa pessoa não é ateia? Porque o mesmo vale para o feminismo e os “feminismos vulgares”.

Um pensamento sobre “A falácia da feminista escocesa

  1. Keli Alexandre fevereiro 16, 2013 às 00:50 Reply

    É isso mesmo.

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