GUEST POST: Feminicídio

Pessoas, pela primeira vez estou recebendo um guest post. Minha amiga, que pediu para ser identificada apenas como J., escreveu este texto e me pediu para postar. Achei muito bom, explica a problemática dos abusos sofridos por mulheres e crianças de um ponto de vista que geralmente não exploramos. Sem mais delongas:

 

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E daí que o semanal Fantástico, da Rede Globo, decide passar uma reportagem sobre Abuso Infantil.

A iniciativa foi forte e tocante, uma matéria para abrir os olhos. Mas abrir os olhos para qual problema?

 

Um estudo inédito feito pelo Juiz Luiz Rocha, da Vara da Infância de Recife aponta dados alarmantes sobre o assunto.

 

Dos 427 processos analisados:

 

42% são de abuso sexual

58% são de violência física

 

Desses casos, traçou um perfil do agressor, que em sua maioria é homem, empregado, alfabetizado, entre 17 e 25 anos e sem antecedentes criminais.

Traçou também um perfil da vítima, que me foi no mínimo chocante. A vítima tem em média 13 anos, estuda, e é menina em 98% dos casos.

E aí meu raciocínio parou de processar qualquer outro dado exibido na tela, mas vocês podem ver a reportagem aqui

O que a imprensa e os tribunais não se atentam, ou talvez não queiram se atentar, é de que não se trata apenas de abuso infantil. Trata-se de um machismo que atravessa gerações, enraizado dentro de todos. É sobre uma cultura de estupro, de submissão e principalmente: feminicídio.

 

Ninguém fala muito sobre feminicídio. Vi alguns posts sobre isso no blog da Lola, vi em alguns comentários pelo Facebook, mas sempre quis um dado que jogasse isso na cara de todo mundo. E aí está, a realidade dura e cruel da nossa sociedade machista.

Se eu queria que mais vítimas fossem meninos? Óbvio que não, vítimas de abuso sexual nunca deveriam existir, mas existem e são em sua grande maioria meninas que se tornarão mulheres reprimidas, submissas e humilhadas. Que possivelmente entrarão em relações nas quais serão submissas e humilhadas, que vão reproduzir esse comportamento em seus filhos e filhas, o de agressor e o de agredida.

91% das agressões ocorrem em casa, imagina só? Você ser espancada ou estuprada pelo seu pai ou seu irmão mais velho? Crescer nesse ambiente nocivo?

 

O feminicídio existe desde os tempos medievais e nós nem falamos a respeito. Mulheres eram queimadas por supostamente serem bruxas, somente as mulheres. Mulheres são, de acordo com as religiões que se baseiam na bíblia, malditas, por Eva ter comido o fruto proibido. Se abusam ou estupram uma mulher, vão perguntar que roupa ela usava na hora, se ela estava bêbada e se ela não deu bola pro cara e depois se negou.

Você não precisa matar mulheres pra praticar o feminicídio, você pode estar apoiando ele. Apoiando o pensamento de que estatísticas como as do início do texto, são apenas dados sobre o abuso infantil. Você pode estar por aí reproduzindo comportamentos medievais, julgando mulheres pelas suas roupas e dizendo que uma vítima “pediu pra ser estuprada”. Me diz, isso te deixa longe dos homens que queimavam mulheres vivas?

E nem me façam começar a falar sobre os relacionamentos que acabam em tragédia, porque o cara achou que a mulher era propriedade dele.

 

Quantas vítimas de feminicídio serão necessárias para que a sociedade entenda que não é um comportamento violento sazonal ou social, mas de gênero?

Quantas crianças ainda vão ser abusadas, quantas reportagens teremos que ver sobre isso, sem fazerem a menor ligação dessas ocorrências com o machismo e o feminicídio?

Eu não sei quantas, mas sei que podemos abrir os olhos da sociedade para essa questão. Não se trata de privilégios, mas do direito de crescer e viver num país onde ser mulher seja só isso. Sem as implicações de ter que beber pouco pra não ser estuprada, de não usar saia pra sair sozinha, de abaixar a voz porque o pai é o chefe da família. Apenas ser e vivenciar toda a delícia que é ser mulher.

 

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