Por que ter medo de rótulos?

Não sei se vocês lembram, mas há bastante tempo eu fiz um post sobre a necessidade de algumas pessoas pertencerem a grupos. Mas o que eu tenho percebido é a tendência contrária: as pessoas têm apresentado um medo irracional de ser rotuladas.

Vamos primeiro tentar entender como funcionam os rótulos. Eles acontecem de forma bastante natural: você precisa entender com quem está lidando, qual o conjunto de regras e premissas das quais a pessoa parte. Para fazer isso, você precisa de uma amostra da opinião da pessoa, que é apresentada em um debate. A partir disso, acabamos traçando uma tendência, que nos permite prever alguns posicionamentos com uma confiabilidade interessante (principalmente quando obtemos mais experiência em debates).

Precisamos dar nome aos bois, e foram concebidas ao longo da história centenas de correntes ideológicas para isso, e é assim que surgem os rótulos. Eles não são totalmente arbitrários e necessariamente maléficos, como alguns têm assumido recentemente. Têm seu motivo de ser: ideologias são baseadas em sequências lógicas, as conclusões são extraídas em série umas das outras de acordo com um conjunto de partida de conhecimentos, premissas e regras. Assim, quando uma pessoa começa a se aproximar bastante de uma corrente ideológica, é muito provável que acabe seguindo bastante alinhada com esse raciocínio. Principalmente porque não existimos no vácuo, praticamente todos fomos expostos à maioria das correntes ideológicas existentes e acabamos usando-as como base argumentativa e ponto de partida, mesmo sem saber.

Os rótulos têm seu lado ruim? SIM!!! Às vezes extrapolamos esse mecanismo de traçar tendências e passamos a colocar pessoas à força em rótulos, exigir lealdade a uma causa de alguém que nunca a prometeu em primeiro lugar, assumir posicionamentos que não foram revelados e se mostram falsos (construindo sem querer um espantalho da pessoa). Também podem levar pessoas a se fecharem em seus rótulos, se auto-sugestionarem a aceitar um pacote de ideologia por completo, rejeitarem influências externas e fazerem vista grossa para os próprios erros, disparando um fanatismo ideológico. Mas rótulos são intrinsecamente ruins? Não. Assim como ideologias não são ruins por si só.

Por que ter medo de rótulos?

Por que ter medo de rótulos?

No geral, rótulos não passam de tentativas de identificar o interlocutor, “reconhecer o terreno” da discussão, conhecer as premissas e os posicionamentos de todos .

E o que está ficando mais ridículo em todas essas discussões, nesse medo irracional de rótulos, é que não podemos mais apontar essas tendências. Parece que somos proibidos de rotular, como se isso fosse uma ofensa gravíssima!

Pense no seguinte cenário: uma pessoa apresenta consistentemente toda a lógica argumentativa associada a um certo rótulo, a ponto de ter até os mesmos argumentos que essas pessoas. E vamos mais a fundo: esse rótulo nem representa uma ideologia per se, e sim um comportamento presente no senso comum (e bastante indesejável ultimamente, diga-se de passagem). Como a pessoa quer o direito de, frente a tudo isso, ainda sim não ser rotulada?

Suponhamos que se trate de alguém que fez vários comentários racistas. A pessoa começou falando contra as cotas, defendendo “meritocracia”, dizendo que cotas são medidas racistas. Depois seguiu para dizer que não há necessidade de políticas públicas contra o racismo, que tudo isso é discriminação contra o branco, que “orgulho negro” e “orgulho branco” são a mesma coisa. A seguir, colocou que nunca viu negros ocupando lugares de relevância e atribuiu isso ao próprio negro, e não ao seu contexto. E para fechar com chave de cocô, se justificou dizendo que “não é racista e até tem amigos negros”. Mas se incomoda se eu disser que é racista, diz que eu acuso todas as pessoas que discordam de mim e que estou tentando padronizar o pensamento. Faz algum sentido?

Assim, devemos tomar cuidado tanto em discriminar quem participa de grupo nenhum quanto em detestar todos os rótulos. Até porque não tem jeito: você vai ganhar o rótulo de “do contra”, vai ser rotulado como “a pessoa que odeia rótulos”. E aí, como fica?

Se preferir, tem esse rótulo aqui. E milhares de outros também!

Se preferir, tem esse rótulo aqui. E milhares de outros também!

A falácia da feminista escocesa

Estava refletindo esses dias sobre um problema bastante recorrente na militância feminista: a acusação de falácia do escocês. Já existem textos muito bons sobre o assunto, recomendo este da Åsa Heuser, mas eu gostaria de fazer alguns complementos aqui.

Corro o risco de estar definindo uma luta que não é exatamente minha, então vou tomar cuidado redobrado para não fazer mansplaining e encobrir as mulheres, as verdadeiras protagonistas do feminismo. Prosseguindo então.

Para lidar adequadamente com a falácia do escocês, é importante definir o que estamos falando, e esse é um ponto bastante delicado, visto a quantidade de desinformação corrente sobre o feminismo e muitas vezes a falta de uma definição formal. E aqui vou deixar a minha definição: feminismo é a luta pela plena igualdade, que implica no fim dos restritivos papéis de gênero e quaisquer sistemas que busquem moldar ou restringir a identidade de gênero. Essas metas são o caminho para de fato atingir a emancipação de todos os grupos: mulheres, transsexuais, intersexo etc (e desnecessário falar dos homens, já temos toda sorte de reacionários antifeministas implicando com isso a cada segundo e até mesmo procurando problemas contra os quais ninguém se manifestava). Ao meu ver, essa é a única forma de solucionar os problemas estruturais de gênero na nossa sociedade e não substituí-los por outros problemas. O matriarcado, por exemplo, seria misândrico e muito provavelmente continuaria tão cissexista quanto o patriarcado, e o FEMEN é um bom exemplo disso.

Tendo essa definição em mãos, podemos finalmente dizer o que é ser feminista. E assim podemos colocar fim nas acusações de falácia do escocês que abundam em meios antifeministas. O maior problema nisso tudo é o desentendimento de definições: a maior parte do público leigo considera feminismo qualquer forma de empoderamento feminino, e podem acabar incluindo atitudes extremamente equivocadas, muitas vezes cissexistas e até mesmo… machistas! Vide a imagem abaixo, que para o público leigo pode ser considerada feminismo:

"Isso não é feminismo. Isso é tentar - mal e porcamente -  ’dar o troco’ no machismo. Feminismo é outra coisa." - Isso Não É Feminismo

“Isso não é feminismo. Isso é tentar – mal e porcamente – ‘dar o troco’ no machismo. Feminismo é outra coisa.” – Isso Não É Feminismo

Como já fiz outra vez, podemos estabelecer novamente um paralelo entre feminismo e socialismo: os teóricos marxistas, inclusive o próprio Marx, estabelecem como “socialismo vulgar” tentativas socialistas que não resolvem os problemas estruturais do capital. Por exemplo, se simplesmente tirarmos dinheiro dos ricos e dermos para os pobres, tornando todas as riquezas iguais do dia para a noite, isso não seria suficiente para solucionar o problema da pobreza. Um capitalista tem o conhecimento da acumulação de capital e administração de riqueza, enquanto um proletário ou mesmo um pequeno burguês nunca teve contato com isso. O proletário, por estar muito tempo em uma situação de pobreza, acabaria muitas vezes gastando muito para satisfazer suas necessidades e acabaria por fim devolvendo todo esse dinheiro ao burguês, voltando para a situação original e tendo que se subordinar às mesmas relações de trabalho, reconstruindo completamente o modo de produção capitalista, talvez mudando ligeiramente os proprietários do capital.

De forma parecida, um projeto de “feminismo vulgar”, digamos, que apenas reforçasse noções como “nós fazemos tudo o que os homens fazem, só que de salto alto e maquiagem” e perpetuasse estereótipos de gênero, apenas invertendo o prisma e colocando o homem em posição de inferioridade, poderia até solucionar certos problemas da auto-estima feminina e tirar dos homens o poder sobre o corpo feminino, mas ainda conservaria certas noções do que faz um “homem de verdade” e uma “mulher de verdade”, que continuam sendo conceitos opressivos. Poderíamos ainda ter nesse sistema uma grande rivalidade entre mulheres, haveria o controle do corpo feminino pelas próprias mulheres, julgando umas as outras (afinal de contas, homens são julgados uns pelos outros na sociedade machista), e a questão trans continuaria sem solução.

Erick Calistrato, um feminista escocês de verdade (Não entendeu? Clique na imagem!)

Com tudo isso, podemos dar uma conclusão: se não faz parte dessa definição do “feminismo real”, não é feminista. Podemos falar isso livremente sem ser falacioso. Mas sem essa discussão toda pode soar muito falacioso, então podemos fazer uma analogia bem simples: se uma pessoa se declara ateia mas diz que Deus existe, é falácia do escocês dizer que essa pessoa não é ateia? Porque o mesmo vale para o feminismo e os “feminismos vulgares”.

Sororidade, do feminismo para o proletariado

Tive uma reflexão sobre um paralelo que poderia haver entre o feminismo e a luta do proletariado. Em ambas as causas existe desunião dentro da categoria que luta (ou deveria estar lutando) por essa causa, e a sororidade* deveria ser incentivada. Essa introdução ficou um pouco confusa? Não sabe o que é sororidade? Vou explicar.

Uma reclamação bastante recorrente no feminismo é a de que não há uma união entre as mulheres como há entre os homens, e isso dificulta ainda mais a luta contra o patriarcado. Assim, seria necessário criar o sentimento de sororidade (do latim soror, irmã, é o feminino de “fraternidade”) entre as mulheres e diminuir a competição e a discórdia entre elas, alimentadas pelo patriarcado, que de forma geral tornou todas as mulheres competidoras em potencial pela atenção masculina. Sabe aquela história de que todas as mulheres são víboras traiçoeiras e nunca são amigas de verdade umas das outras? Então…

Algo semelhante ocorre dentro da classe trabalhadora. De forma muito parecida com o patriarcado, o capital emprega muito bem a estratégia de dividir para conquistar, dificultando a solidariedade entre os trabalhadores. Percebemos isso, por exemplo, quando há uma greve e a primeira coisa que as pessoas (em sua esmagadora maioria, trabalhadores) fazem é se lamentar ou reclamar pela falta do serviço do qual dependem. Simpatizar pela luta daqueles trabalhadores passa longe: já temos nossas vidas muito ocupadas em busca da sobrevivência, do crescimento profissional e do sucesso.

Vejo que as duas causas têm um ponto em comum para trabalhar: construir essa cooperação. Assim como as mulheres precisam parar de acusar umas às outras de “vadias”, de disputar pelos “bons partidos” e cooperar para superar juntas as situações de abuso e humilhação, abrir seus espaços em meios ainda dominados por homens e fortalecer sua auto-estima em conjunto, os trabalhadores precisam parar de acusar grevistas e outros manifestantes de serem vagabundos que deveriam ser demitidos, de reclamar por não poder ter seu serviço e entrar para a luta, se manifestar por condições melhores para esses trabalhadores (que muitas vezes recebem pouco mesmo prestando serviços com custos elevados ao consumidor) e estar atentos à exploração no seu próprio meio também.

Imagem tirada da Anarcomiguxos

Imagem tirada da Anarcomiguxos

Termino colocando minha opinião fecal: a sororidade também deve ter seus limites, pois a tolerância com os intolerantes é um caminho certo para destruir toda a tolerância que ainda existe. Parceria com operário pelego, que apóia empresários em detrimento dos seus colegas de classe e aplaude sua própria exploração? Com mulher antifeminista por opção (e não por ignorância), que faz questão de legitimar o patriarcado? Tô fora!

 

* Usei “sororidade” também para o proletariado por dois motivos: criar uma ligação com o feminismo e quebrar a normatividade masculina.

Filosofia?

E aí galera, beleza? Dessa vez vou fazer um post bem diferente, bem pessoal e descontraído. É uma resposta a um amigo meu da Skynerd, o RubensKaboom, que tem um canal de games no YouTube e começou uma série para falar sobre tudo. Mais ou menos o que eu faço aqui no meu blog, mas menos político, mais descontraído e com um jogo rolando no fundo. E ele começou logo falando de como filosofar ajudou a vida dele e os obstáculos que ele superou na vida até então. Decidi fazer uma resposta e falar sobre a minha vida, por que não?

Minha vida foi muito parecida com a sua, Rubens. Eu era uma pessoa bem isolada até uns 12-13 anos, era bem esquisito, brincava sozinho, me recusava a socializar, o pouco que eu tinha de contato era horrível, sofria bullying, cheguei a ser bastante misantrópico por uns tempos: com exceção da minha família e algumas poucas pessoas fora dela, eu odiava pessoas e queria fugir para uma caverna. Mas foi mais ou menos aí que comecei a conhecer pessoas pela internet, enquanto jogava. Algumas dessas amizades mantenho até hoje, depois de 6, 7 anos. São pessoas que me ajudaram bastante, que também passaram por problemas parecidos e me contaram um pouco como superaram, o que eu poderia fazer para superar.

Uma boa parte dessa superação eu contei em outro post, que foi a minha visão dos relacionamentos, do amor e do sexo. Esse foi e ainda é um dos maiores problemas que eu enfrento. Tenho meus problemas de auto-estima, minhas “frescuras” para conhecer pessoas e me envolver de uma forma mais leve e casual, mas no geral posso afirmar que deixei muito para trás.

E claro, a filosofia foi importante em tudo isso. Aprender sobre os filósofos, ter acesso a esse tipo de questionamento, até mesmo o próprio jargão filosófico, faz você pensar de forma mais profunda sobre tudo que está ao seu redor. Por mais bizarro que pareça, tanto o epicurismo e o estoicismo foram essenciais para eu ficar em calma comigo mesmo. Do estoicismo aprendi a aceitar que algumas coisas estão fora do meu controle, podem acabar sendo maiores que eu, e a única coisa que posso fazer é resistir e não gastar minhas energias com o que não posso mudar. Já do epicurismo, que certos “prazeres” são artificiais, são apenas coisas que os outros dizem ser boas, mas que não me darão satisfação pessoal, e eu devo procurar atender aos meus desejos verdadeiros, simplificar a minha vida e apreciar as pequenas coisas que nos cercam.

Tudo isso foi mais intenso com a internet, em contato com pessoas que talvez eu nunca conhecesse de outra forma. Depois entrei em outros meios, primeiro no ateísmo, de lá tive contato com o feminismo e ampliei meu conhecimento sobre o socialismo, fiz outros ótimos amigos e até encontrei minha primeira namorada por lá. Uma nova série de contatos com pessoas que puderam me acrescentar coisas novas e enriquecer ainda mais a minha experiência.

Enfim, o que eu posso dizer é que te entendo e me identifico muito com você. E sabe essa coisa de ser “o Super-Homem”? Eu tinha, mas era um pouco pior: eu queria ser rei. Sério. Imagina o quando eu não sofri pra descobrir que isso é impossível e até injusto hoje…

Você sabe o que é capital cultural?

Desde que escrevi meus posts sobre educação continuei me envolvendo em discussões sobre cotas, e me mostraram um ponto bastante importante em toda a discussão educacional que eu desconhecia: o capital cultural. O vídeo a seguir explica muito bem, de forma bastante didática e com exemplos, o que é este conceito.

Somente agora, um bom tempo depois de tomar conhecimento do capital cultural, percebi como essa discussão está intimamente ligada à questão das cotas e inclusive serve como contra-argumento ao lugar comum “as cotas dizem que o negro é incapaz de fazer a prova”.

Primeiramente, temos que lembrar que a lei atual do sistema de cotas tem um caráter acima de tudo social ao colocar baixa renda e ter frequentado o ensino público como requisitos para ingressar no programa; e é bastante óbvio que rendas mais elevadas permitem um acesso melhor à cultura dominante, ao que se considera “cultura boa” na sociedade e, por extensão, na escola. Mas também podemos perceber que o fator racial cria um abismo ainda maior, porque negros em geral estão submetido à pobreza mais extrema e aos espaços geográficos menos favoráveis ao acesso desse tipo de cultura. Mesmo em eventos culturais populares (e.g. semana de divulgação do teatro, dias gratuitos ou com desconto em museus) e entre as pessoas de baixa renda os negros e pardos continuam sendo minoria.

Assim, como explicado no vídeo, é cada vez mais difícil acompanhar a educação em um contexto desses. Aquilo que é passado na sala de aula parece de outro mundo, enquanto a cultura que o aluno conhece e que faz parte de sua vida é ignorada e desprezada no plano de ensino. E muitas vezes o próprio professor agrava esse quadro com seu despreparo, trazendo seus preconceitos para a sala de aula, se deparando com uma situação que ele desconhece, perpetuando uma mecânica de dominação cultural da qual ele não tem consciência. Desta forma o professor muitas vezes perde a paciência, desanima ou mesmo considera o aluno incapaz, já que não entende por que é tão difícil para ele.

O sistema de cotas, além de medida paliativa para reduzir o abismo social e introduzir pessoas de contextos diferentes no meio acadêmico e em profissões qualificadas, pode trazer a tona o meio onde os mesmos cresceram, colocá-lo em evidência e tornar a discussão acadêmica mais próxima da realidade popular. Podemos ter no futuro, por exemplo, artistas graduados levando a arte popular para os meios elitizados ou pedagogos que passaram por essas dificuldades e decidem propor modelos novos para superar esse problema da educação no futuro.

Bebê não me machuque, não me machuque não mais!

Z39PL_F06

Quem nunca?

Pessoas, alguém lembra deste post aqui? Estava relendo e percebi o quanto mudei desde que escrevi. Aliás, uma coisa que eu nem percebia na época e precisa ficar claro: eu estava em um período transitório. Eu era uma pessoa extremamente moralista quanto a relacionamentos (pelo menos não se pode dizer que eu era machista, porque eu queria impor o mesmo conjunto rígido de regras para todas as pessoas da face da Terra indiscriminadamente) até há um pouco menos de dois anos atrás, e quando escrevi esse post eu estava começando a me libertar disso. Estava em transição e nem percebi como ficou refletido na minha escrita: digo ao mesmo tempo que quem não gosta de relacionamento estável não achou a pessoa certa e que algumas pessoas não se encaixam nesse tipo de relacionamento. OPA PERA

Então aqui vai a minha nova opinião sobre isso.

Eu compreendia muito mal as críticas aos relacionamentos tradicionais, e acabei construindo um espantalho deles naquele post. As pessoas que criticam esses relacionamentos geralmente o fazem com uma base bastante sólida: esse modelo é restritivo, trás uma carga grande de machismo. É uma reprodução do casamento patriarcal de uma forma mais casual. A infidelidade masculina recebe vista grossa, ou mesmo é incentivada, e a feminina, duramente reprimida. Existe uma ilusão de poder feminino na imagem da mulher ciumenta, mas é ela quem é xingada, ameaçada, apanha ou até mesmo é assassinada porque ousou trair ou abandonar o parceiro.

Eu não entendia na época que eu tinha uma visão romantizada do que talvez fosse boa parte dos namoros ao meu redor, eu já tinha uma concepção um pouco diferente de como queria tratar a minha parceira. Tanto é que ouvia aqueles “conselhos maravilhosos” de que mulher gosta de ser tratada mal, até ouvia outros homens falando que eu só ia me ferrar desse jeito e estava nem aí.

Quanto às pessoas que “não sossegam”, continuo com a mesma visão: são pessoas forçadas a viver em um modelo de relacionamento que não as satisfaz.. A diferença é que eu me acalmei  quanto a minha postura militante nesse assunto e não tenho mais vontade alguma de fazer uma “cruzada para consertar o mundo”. Tenho confiança nas minhas preferências, sei que não estou sozinho no mundo e que não existe um esforço sistemático da sociedade para destruir qualquer relacionamento duradouro, e isso me basta. Curiosamente, não me sinto tão envergonhado desse meu período como imaginei que me sentiria.

Todo o resto é preferência pessoal, e nisso posso dizer que não mudei muito. Continuo o mesmo “romântico incorrigível” de antes, a diferença é que me abri mais para o feminismo e consegui finalmente entender que não existe “fórmula mágica” para os relacionamentos. E percebi como isso é bom. E para isso, fecho o post com o meu sensacional guia definitivo dos relacionamentos.

9Rgqq

Anarcocapitalismo é pior que crackonha, parte 2: Direito a saúde é escravidão

Talvez vocês tenham visto um certo vídeo que está rodando por aí. Este não é do Instituto Mises Brasil, e sim da Libertarianismo Plus, outra página anarcocapitalista, que tem bastante material no YouTube. O vídeo problemático agora é esse aqui:

Fiquei impressionado em como as noções de direitos conseguem ser tão dogmáticas e restritas. Como esse discurso consegue ser tão desonesto com a noção de direitos e de trabalho.

Fazendo uma análise completa como fiz antes, vou começar pela própria descrição que a Libertarianismo Plus colocou:

Muitos Americanos vêem, equivocadamente, a Saúde como um direito. Saúde não é um direito porque requer que algo seja tirado de uma outra pessoa.

Usando uma ótica bastante simplista e nos atendo à máxima “minha liberdade termina onde a sua começa”, podemos dizer que TODO direito retira algo de uma outra pessoa. O direito à vida retira o direito de outra pessoa tirar vidas. A instituição da propriedade privada retira o direito que todos teoricamente teriam à totalidade das terras e dos recursos existentes. O direito da busca da felicidade retira o direito de impedir a busca da felicidade alheia. Logo na descrição o vídeo já trás uma definição BEM esquisita de direito…

Agora, o vídeo propriamente dito:

A questão nas entrelinhas é que muitos americanos vêem saúde como um direito humano. E não é!

(…) as pessoas não têm um direito à saúde assim como não temos direito à educação, alimento, abrigo e roupas.

Não é? Acho que eu vi algo um pouco diferente em um documento chamado DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS…

Artigo XXV

§ 1º Todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em casos de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios subsistência e circunstâncias fora de seu controle.

Mas provavelmente eles responderiam dizendo que a declaração foi escrita pela ONU, que é um órgão estatista coercitivo e que o documento deve ser jogado fora. Então podemos responder de outra forma: um direito inalienável de todo indivíduo é o direito à vida. Certos bens e serviços são necessários para a vida, logo o direito à vida implica em direito a saúde e alimentação, entre outros. Negar isso é ter uma visão muito restrita e cínica do que significa direito à vida. É prender-se a uma visão de 250 anos atrás que resume o direito à vida ao direito de não ser morto por outra pessoa.

Um direito não consiste em algo que as pessoas querem muito.

Concordo. Um direito consiste em algo que as pessoas decidem ser necessário para um mínimo de decência possível. E não é “querer muito” que está em questão quando se fala de saúde pública, e sim a noção de que esse serviço é essencial para que todos possam viver com um mínimo de dignidade. E mais, é uma adequação, uma extensão de um direito já existente (e defendido pela autora do vídeo) que foi percebido como insuficiente da forma que foi inicialmente proposto.

Aliás, estou percebendo enquanto escrevo que é bem difícil definir genericamente o que é um direito…

[O direito à vida, liberdade e busca pela felicidade] não significa que as pessoas devam ser forçadas a melhorar nossas vidas ou nos fazer feliz.

Melhorar? Não estamos falando em melhorar, estamos falando em POSSIBILITAR! E quando EXISTEM recursos para isso, é de fato ético negá-los a uma pessoa e deixá-la morrer só porque esses recursos não pertencem a ela? Na minha opinião, quando a sociedade como um todo possui esses recursos e nega a uma pessoa, está participando de sua morte de forma praticamente indistinguível de um assassinato (digo isso para sociedades, julgar indivíduos desta forma já me parece algo mais delicado).

Dizer que temos direito à saúde é dizer que médicos têm obrigação de nos servir, querendo ou não. Nós não temos direito ao tempo ou aos serviços de alguém. A escravidão já foi abolida há mais de um século atrás. Por que é que muita gente pensa que pode forçar os outros a trabalhar para eles?

Pronto, agora chegou o ponto mais nojento e desonesto do vídeo inteiro. Estou impressionado: alguém conseguiu comparar um serviço de um profissional REMUNERADO, que ESCOLHEU desempenhar sua profissão e ocupar o cargo que ocupa, com TRABALHO ESCRAVO!!! Sério, tá difícil falar o quanto de groselha tem nesse trecho! Acho que nem tem como analisar esse trecho como eu fiz com o resto.

Mas vou dizer, estou até feliz com este vídeo. Ele mostrou que grande maioria das pessoas que assistiram REJEITAM esse tipo de idiotice, não têm uma visão tão restrita sobre direito à vida, percebem as falácias que foram cometidas. E o mais importante de tudo, NINGUÉM levou a sério a parte do trabalho escravo. Nem quem defendeu a autora.