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Por que ter medo de rótulos?

Não sei se vocês lembram, mas há bastante tempo eu fiz um post sobre a necessidade de algumas pessoas pertencerem a grupos. Mas o que eu tenho percebido é a tendência contrária: as pessoas têm apresentado um medo irracional de ser rotuladas.

Vamos primeiro tentar entender como funcionam os rótulos. Eles acontecem de forma bastante natural: você precisa entender com quem está lidando, qual o conjunto de regras e premissas das quais a pessoa parte. Para fazer isso, você precisa de uma amostra da opinião da pessoa, que é apresentada em um debate. A partir disso, acabamos traçando uma tendência, que nos permite prever alguns posicionamentos com uma confiabilidade interessante (principalmente quando obtemos mais experiência em debates).

Precisamos dar nome aos bois, e foram concebidas ao longo da história centenas de correntes ideológicas para isso, e é assim que surgem os rótulos. Eles não são totalmente arbitrários e necessariamente maléficos, como alguns têm assumido recentemente. Têm seu motivo de ser: ideologias são baseadas em sequências lógicas, as conclusões são extraídas em série umas das outras de acordo com um conjunto de partida de conhecimentos, premissas e regras. Assim, quando uma pessoa começa a se aproximar bastante de uma corrente ideológica, é muito provável que acabe seguindo bastante alinhada com esse raciocínio. Principalmente porque não existimos no vácuo, praticamente todos fomos expostos à maioria das correntes ideológicas existentes e acabamos usando-as como base argumentativa e ponto de partida, mesmo sem saber.

Os rótulos têm seu lado ruim? SIM!!! Às vezes extrapolamos esse mecanismo de traçar tendências e passamos a colocar pessoas à força em rótulos, exigir lealdade a uma causa de alguém que nunca a prometeu em primeiro lugar, assumir posicionamentos que não foram revelados e se mostram falsos (construindo sem querer um espantalho da pessoa). Também podem levar pessoas a se fecharem em seus rótulos, se auto-sugestionarem a aceitar um pacote de ideologia por completo, rejeitarem influências externas e fazerem vista grossa para os próprios erros, disparando um fanatismo ideológico. Mas rótulos são intrinsecamente ruins? Não. Assim como ideologias não são ruins por si só.

Por que ter medo de rótulos?

Por que ter medo de rótulos?

No geral, rótulos não passam de tentativas de identificar o interlocutor, “reconhecer o terreno” da discussão, conhecer as premissas e os posicionamentos de todos .

E o que está ficando mais ridículo em todas essas discussões, nesse medo irracional de rótulos, é que não podemos mais apontar essas tendências. Parece que somos proibidos de rotular, como se isso fosse uma ofensa gravíssima!

Pense no seguinte cenário: uma pessoa apresenta consistentemente toda a lógica argumentativa associada a um certo rótulo, a ponto de ter até os mesmos argumentos que essas pessoas. E vamos mais a fundo: esse rótulo nem representa uma ideologia per se, e sim um comportamento presente no senso comum (e bastante indesejável ultimamente, diga-se de passagem). Como a pessoa quer o direito de, frente a tudo isso, ainda sim não ser rotulada?

Suponhamos que se trate de alguém que fez vários comentários racistas. A pessoa começou falando contra as cotas, defendendo “meritocracia”, dizendo que cotas são medidas racistas. Depois seguiu para dizer que não há necessidade de políticas públicas contra o racismo, que tudo isso é discriminação contra o branco, que “orgulho negro” e “orgulho branco” são a mesma coisa. A seguir, colocou que nunca viu negros ocupando lugares de relevância e atribuiu isso ao próprio negro, e não ao seu contexto. E para fechar com chave de cocô, se justificou dizendo que “não é racista e até tem amigos negros”. Mas se incomoda se eu disser que é racista, diz que eu acuso todas as pessoas que discordam de mim e que estou tentando padronizar o pensamento. Faz algum sentido?

Assim, devemos tomar cuidado tanto em discriminar quem participa de grupo nenhum quanto em detestar todos os rótulos. Até porque não tem jeito: você vai ganhar o rótulo de “do contra”, vai ser rotulado como “a pessoa que odeia rótulos”. E aí, como fica?

Se preferir, tem esse rótulo aqui. E milhares de outros também!

Se preferir, tem esse rótulo aqui. E milhares de outros também!

Meu posicionamento político e econômico

Desde o início deste blog eu já tinha uma ideia de posicionamento político (que já mudou consideravelmente, diga-se de passagem), mas não tinha muito clara qual seria a minha proposta. Vim amadurecendo-a nesse meio tempo, e hoje já tenho um projeto mais claro. Ainda está em estágio bem preliminar, ou assim espero, porque eu ainda tenho só 18 anos e todo um curso de economia pela frente…

Então sem mais delongas, vamos lá:

Resultado

Meu "politicômetro", bem pertinente de ser lembrado agora

Meu projeto é  essencialmente o que se pode chamar de “esquerdista”, apesar desse tipo de separação entre “esquerda” e “direita” ser um tanto oca nos dias de hoje. Concordo com a máxima marxista de “de cada qual, de acordo com suas habilidades; a cada qual, de acordo com suas necessidades”, mas sem seguir estritamente alguma “cartilha” que eu já tenha lido, e fazendo um apanhado de outras ideias que considero boas.

Economia

Vejo como o maior problema do capitalismo como é conduzido hoje o corporativismo. Grandes corporações fazem práticas como monopólios e cartéis, que efetivamente destroem o livre mercado (uma ideia essencialmente boa) e acabam prejudicando o consumidor com preços abusivos e serviços de qualidade inferior. É também pelo mesmo motivo que também sou contra a economia completamente subjugada ao Estado.

Na minha visão ainda de leigo interessado por economia,vejo a liberdade irrestrita de mercado como insustentável. Como trata-se de uma competição, alguém vai acabar ganhando. Quando isso acontecer, esse vencedor terá um enorme poder econômico, e consequentemente político, por meio do famigerado lobby, e exercerá controle. Desta forma, novos concorrentes dificilmente conseguirão estar a altura, e assim a liberdade do mercado está ameaçada. Assim, vejo como importante a presença de um incentivo estatal para novas empresas e uma regulamentação forte contra práticas como monopólios e cartéis, para garantir a continuidade da competição, e assim manter altos os padrões de qualidade dos serviços prestados. (Apesar de eu preferir a cooperação à competição, percebo que é ingênuo imaginar que uma sociedade cooperativa funcionaria hoje, da mesma forma que considero ingênuo achar que anarquia funcionaria hoje, apesar de ser na minha opinião a meta para a humanidade.)

Também vejo a especulação como uma prática bastante negativa, além de considerar indigno alguém criar dinheiro simplesmente comprando e vendendo papéis. Acredito que a especulação deveria ser exterminada. Inclusive, puxando para o lado social, acredito que uma solução razoável seria proibir que proprietários mantivessem um terreno fechado por períodos muito longos, sendo obrigados a alugar, vender ou encontrar uma solução parecida. Isso também poderia resolver o défict habitacional, aumentando a oferta de terrenos e assim diminuindo os preços.

Política

Se ele tivesse dito "Fodeu!" em um pronunciamento público, hoje isso seria uma frase histórica.

Citando Winston Churchill, “a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as outras formas que tem sido tentadas de tempos em tempos”. A democracia representativa é a forma de governo melhor consolidada que existe hoje, e acredito que deveria continuar sendo utilizada, mas visando uma transição para a democracia direta, na qual as próprias pessoas poderiam votar diretamente nas decisões, como já acontece em plebiscitos e referendos, mas tornando-os cada vez mais frequentes.

Acredito que os políticos, principalmente os parlamentares, deveriam ser apenas representantes, e não políticos profissionais. O político deveria ser tratado da forma como ele é atualmente na Suécia. O vídeo abaixo (OLD, mas não menos excelente por isso) demonstra perfeitamente.

Também defendo que a eleição de parlamentares deveria ser feita diretamente pelo número de votos, e não com esses  mecanismos de “puxar votos” para um determinado partido.

 

Sociedade e Estado

Como já deve ter ficado bem claro no restante dos meus posts, e até mesmo neste, não defendo o estado mínimo, mas também considero ineficiente um modelo completamente estatizado. As funções que deveriam caber ao Estado na minha opinião seriam garantir para todos os cidadãos em dia com suas obrigações cívicas saúde, educação, segurança, saneamento, acesso a comunicações e eletricidade, além de oferecer subsídios para alimentação e habitação a cidadãos necessitados.

A implantação de infra-estrutura de saneamento, transporte, eletricidade e comunicações seria feita pelo Estado, mas sua manutenção e o oferecimento desse serviço para o cliente final seria feito por meio de empresas privadas, desde que houvesse uma concorrência real entre empresas. Por exemplo, não existe concorrência em concessões de estradas, porque dificilmente alguém mudaria de caminho porque está insatisfeito com o serviço da concessionária de determinada estrada (isso quando não é impossível evitar uma empresa completamente, e.g. quando esta controla todas as estradas de uma região). Também não há concorrência quando apenas uma companhia de eletricidade ou saneamento detém a concessão de uma cidade inteira, ou quando uma linha de transporte público é detida por apenas uma empresa (e geralmente é pior ainda, pois é formado um cartel com todas as empresas de transporte público de uma cidade).

 

Conclusão

Essa é a opinião que eu, ainda como leigo meramente interessado por política e economia, tenho a respeito de como seria um bom sistema político e econômico. Como disse no início, ainda tenho muito pela frente e imagino que muita coisa mudará, assim como muito já mudou antes.