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Você sabe o que é capital cultural?

Desde que escrevi meus posts sobre educação continuei me envolvendo em discussões sobre cotas, e me mostraram um ponto bastante importante em toda a discussão educacional que eu desconhecia: o capital cultural. O vídeo a seguir explica muito bem, de forma bastante didática e com exemplos, o que é este conceito.

Somente agora, um bom tempo depois de tomar conhecimento do capital cultural, percebi como essa discussão está intimamente ligada à questão das cotas e inclusive serve como contra-argumento ao lugar comum “as cotas dizem que o negro é incapaz de fazer a prova”.

Primeiramente, temos que lembrar que a lei atual do sistema de cotas tem um caráter acima de tudo social ao colocar baixa renda e ter frequentado o ensino público como requisitos para ingressar no programa; e é bastante óbvio que rendas mais elevadas permitem um acesso melhor à cultura dominante, ao que se considera “cultura boa” na sociedade e, por extensão, na escola. Mas também podemos perceber que o fator racial cria um abismo ainda maior, porque negros em geral estão submetido à pobreza mais extrema e aos espaços geográficos menos favoráveis ao acesso desse tipo de cultura. Mesmo em eventos culturais populares (e.g. semana de divulgação do teatro, dias gratuitos ou com desconto em museus) e entre as pessoas de baixa renda os negros e pardos continuam sendo minoria.

Assim, como explicado no vídeo, é cada vez mais difícil acompanhar a educação em um contexto desses. Aquilo que é passado na sala de aula parece de outro mundo, enquanto a cultura que o aluno conhece e que faz parte de sua vida é ignorada e desprezada no plano de ensino. E muitas vezes o próprio professor agrava esse quadro com seu despreparo, trazendo seus preconceitos para a sala de aula, se deparando com uma situação que ele desconhece, perpetuando uma mecânica de dominação cultural da qual ele não tem consciência. Desta forma o professor muitas vezes perde a paciência, desanima ou mesmo considera o aluno incapaz, já que não entende por que é tão difícil para ele.

O sistema de cotas, além de medida paliativa para reduzir o abismo social e introduzir pessoas de contextos diferentes no meio acadêmico e em profissões qualificadas, pode trazer a tona o meio onde os mesmos cresceram, colocá-lo em evidência e tornar a discussão acadêmica mais próxima da realidade popular. Podemos ter no futuro, por exemplo, artistas graduados levando a arte popular para os meios elitizados ou pedagogos que passaram por essas dificuldades e decidem propor modelos novos para superar esse problema da educação no futuro.

Considerações sobre a educação brasileira (Parte 1)

Ultimamente houve vários acontecimentos a respeito da educação brasileira, principalmente em relação à nova lei de ações afirmativas no processo seletivo das universidades. Isso me levou a uma série de reflexões sobre a educação. Demorei muito para escrever este post, mas acho que mesmo assim é válido.

Parte 1: Por que sou a favor do sistema de cotas

Sempre que abordamos esse tema, devemos lembrar que o preconceito surge do desconhecimento. Quando não conhecemos determinado grupo da sociedade, automaticamente preenchemos essa lacuna com o senso comum veiculado no nosso meio. Assim, somos levados de forma inconsciente a acreditar que negros provavelmente são mais pobres, mais propensos à marginalidade e por isso menos confiáveis ou desejáveis que brancos. No momento em que existe a convivência entre negros e brancos, há a possibilidade de conhecimento entre as duas populações e consequentemente a quebra de mitos a respeito do antes desconhecido.

Sendo assim, isso justificaria um critério racial, e não apenas social. E negar a existência de raças (um critério fictício do ponto de vista objetivo, mas que infelizmente apresenta-se como fato social) não resolve o problema, apenas joga-o para baixo do tapete. Forçar essa convivência entre as raças é a forma de desconstruir a distinção racial dentro da nossa sociedade.

É fato que negros ganham menos que brancos em cargos equivalentes no mercado de trabalho. Brancos são automaticamente vistos como mais qualificados e com melhores condições de vida. Negros e pardos precisam provar o contrário quando a situação se inverte, porque a norma dentro da nossa sociedade é apresentar o negro e o pardo na base da pirâmide social. Oferecendo melhores condições de instrução para o negro e o pardo, podemos vê-los em cargos melhores no mercado de trabalho, competindo com brancos e desconstruindo o mito do negro subalterno. Este é um processo de longo prazo, e é previsível que os primeiros egressos do sistema de cotas sofrerão com salários menores e planos de carreira menos favoráveis em relação aos seus colegas brancos.

Um detalhe muito importante a ser lembrado na redação do novo projeto de lei do sistema de cotas é o fato delas serem um misto de raciais e sociais. Em primeiro lugar, é necessário ter cursado o ensino médio em colégio público: os negros ricos estão assim automaticamente excluídos do processo. Segundo, o branco pobre não está excluído: metade das vagas do programa funciona em um sistema livre de critérios raciais, tendo como pré-requisito apenas o ensino público e assim contemplando também os brancos pobres.

Mesmo assim, ainda é válida uma crítica: de que esse sistema não resolverá de fato o problema da desigualdade e que o investimento em educação básica é imprescindível. É bastante possível que o sistema de cotas tenha motivação eleitoreira e encubra a falta de investimentos em educação. Por esse motivo, a pressão popular deve ser a favor da educação básica, e não contra o sistema de cotas.

Por último, é importante lembrar que a experiência com o sistema de cotas vem se mostrando positiva, visto que os alunos cotistas apresentam desempenho igual ou superior ao de seus colegas não-cotistas. E isso já deixa o gancho para a parte 2 da minha análise sobre a educação.