Arquivo da tag: economia

Passe Livre: utopia?

Estava pensando no que escrever sobre os protestos que estão acontecendo recentemente, eis que vejo um vídeo muito bom de um amigo que aborda um ponto que não tinha pensado direito: e o passe livre em si? Quais seriam os impactos? Ele já levantou boa parte dos pontos, mas gostaria de aprofundar com os conhecimentos que já tenho (e que expus brevemente na minha série sobre “verdades econômicas”).

20 centavos é bastante

O exemplo do Rafael foi bem interessante para ilustrar como o aumento nas passagens se propaga em termos macroeconômicos (só não foi perfeito porque provavelmente a travesti se refere como “ela” e tem um nome feminino, mas isso não vem ao caso). Vamos nos aprofundar no mesmo e explicar em termos de salários e lucros agregados, como fiz no primeiro texto da série.

Mencionei que o aumento agregado dos salários aumenta os lucros dos produtores de bens de consumo e aumenta a demanda efetiva da economia, levando a um aumento generalizado de produção no longo prazo. É bastante razoável pensar que a recíproca é verdadeira: quando se eleva a taxa de lucro e diminui a participação dos salários na economia, temos uma retração da demanda efetiva e, no longo prazo, da produção. E como diz um dos gritos de ordem das manifestações: “ô motorista, ô cobrador, me diz se o seu salário aumentou?”. Como se trata de um serviço essencial a uma parcela muito grande da população, as pessoas continuarão pagando mesmo com os aumentos (i.e. a passagem de ônibus é altamente inelástica). Isso significa que a demanda efetiva será reduzida para todos os trabalhadores que utilizam o transporte público e haverá uma retração geral na economia.

Se fosse o caso dessa receita adicional ser revertida em expansão da frota, os produtores de bens de ônibus seriam estimulados a aumentar sua produção e haveria maior contratação da empresa de transportes, mas também não é o que observamos. Assim, tudo indica que o cenário apresentado no vídeo se confirma.

Gastos públicos: 1+1>2

Podemos perceber que o gasto com salários gera no longo prazo retornos maiores que os gastos feitos pelos empresários no momento inicial. Uma economia não é um sistema de soma zero. Mas será que o mesmo pode ser dito para os gastos públicos? Ao que tudo indica, sim.

Começamos com uma observação bastante óbvia: quando o governo contrata bens e serviços, eleva a demanda e aquece a economia como um todo. Isso permite que o produto da economia aumente e o montante arrecadado no futuro seja maior, permitindo sustentar o déficit público ou oferecer serviços de maior qualidade ao público. Assim, os gastos públicos estimulam a produção e permitem maiores massas de lucro.

Quando esses gastos são direcionados para serviços públicos, aparece outro efeito interessante: a população mais pobre pode desfrutar de serviços normalmente inacessíveis e elevar seu padrão de vida. Além de aumentar o bem-estar social, isso permite mais oportunidades para essa classe social e aumenta a produtividade dos trabalhadores como um todo. Isso sem dúvidas eleva a produtividade e a competitividade de uma economia, trazendo benefícios globais ao sistema. E quando se fala de transporte, temos questões bastante específicas que tornam o assunto mais complexo.

O trânsito causa enormes prejuízos. Segundo relatório da ONU, São Paulo enfrenta perdas bilionárias com o trânsito e tem como um de seus maiores desafios para os próximos anos a solução dos problemas de mobilidade urbana. São levados em conta fatores diversos, como o desperdício de tempo (que eleva o custo da mão de obra e do frete) e de combustível, e os impactos da poluição. No caso de São Paulo o trânsito é um gargalo para a economia nacional, visto que uma parcela significativa do PIB nacional e a esmagadora maioria das sedes de empresas no país concentram-se nessa cidade.

Este estudo também demonstra que as grandes obras de tráfego, como pontes, túneis e alargamentos de vias, foram pouco eficientes em resolver os congestionamentos. O problema está principalmente no tamanho da frota de veículos particulares (e esse problema se repete em muitas outras cidades). Isso acontece porque não existe uma estrutura adequada de transporte público. As opções apresentadas não contemplam as necessidades dos usuários (e.g. linhas de ônibus mal planejadas, onde se percorre uma distância muito grande para atravessar o que seria próximo de carro), são caras e de baixa qualidade, e assim o transporte público não supera a comodidade e a privacidade do carro particular.

A tão famosa imagem comparando o espaço gasto por carros, ônibus e bicicletas para transportar o mesmo número de pessoas

A tão famosa imagem comparando o espaço gasto por carros, ônibus e bicicletas para transportar o mesmo número de pessoas

Com a população em expansão, é inviável (ou até mesmo impossível) oferecer espaço para toda a população usar carro. E iniciativas como incentivar a carona não têm o impacto necessário, são meramente paliativas, além de ser invasivas em alguns contextos. Apenas o transporte coletivo pode de fato solucionar esse problema. Reduzindo em 30, 40 vezes o espaço ocupado nas ruas por carros, os benefícios seriam imensos. Menos tempo gasto no trânsito, redução do stress, maior qualidade de vida (i.e. menores gastos com saúde, tanto por stress quanto por acidentes de trânsito), custos de frete mais baixos. Reduzindo o desperdício do sistema como um todo, esse excedente resultaria em maiores montantes arrecadados em impostos, maiores lucros para as empresas e possivelmente maiores salários.

E como fica o Passe Livre? Se o transporte público for gratuito, isso seria uma vantagem imensa para o mesmo e poderia desencorajar as pessoas a usarem seus carros. Se isso for verdade, uma passagem subsidiada, ou mesmo gratuita, é um investimento do governo com claras perspectivas de retorno. Retorno este que pode tornar viável o que parece utopia.

Discutindo algumas “verdades” sobre economia II

Fiz um primeiro post sobre o assunto há mais de um mês e nesse meio tempo juntei mais conceitos repetidos pelo senso comum sobre economia. Diferente do anterior, esses dois pontos estão um tanto interligados e são de fato meias verdades. Sem mais delongas:

1 – Oferta e demanda

A Lei da Oferta e Demanda diz que os preços das mercadorias são regulados pelo mercado de acordo com suas quantidades e o número de compradores. Essa situação equilibra os interesses de compradores e vendedores e possibilita uma situação onde o maior número de pessoas está satisfeita ao mesmo tempo e não é possível beneficiar uns sem prejudicar outros (o que é conhecido nas ciências sociais como eficiência de Pareto).

Gráfico típico de oferta e demanda, conhecido na teoria econômica como tesoura marshalliana

Gráfico típico de oferta e demanda, conhecido as vezes na teoria econômica como tesoura marshalliana

Podemos ver no gráfico como funciona o equilíbrio de mercado. O ponto de equilíbrio é, nas dadas condições, eficiente à Pareto: os ofertantes teriam custos maiores para ofertar mais mercadorias, e por isso, colocariam preços maiores, para o qual haveria menos compradores.

Esse princípio parece bastante lógico, mas na verdade representa apenas uma parcela do mercado. Que vem ficando cada vez menor, diga-se de passagem.

A esmagadora maioria dos bens de consumo hoje são industrializados e diferenciados. Isso significa que cada fabricante trás um produto com uma vantagem específica em relação a seus concorrentes, e por isso agrada um certo nicho do mercado. Dessa forma os preços não são regulados pelo mecanismo de oferta e demanda, porque não existe substituição perfeita entre os bens: não é uma questão de apenas procurar a marca mais barata, porque ela pode não agradar ao consumidor em um aspecto específico. Uma boa forma de ilustrar essa questão é a indústria automobilística. Algumas marcas se especializam em potência, outras, em design, conforto, assistência técnica, acessórios…

Assim, a regulação de preços de facto acaba ocorrendo em outro padrão, que originalmente era imaginado para mercados monopolizados. A empresa, e não o mercado, decide os preços baseado no custo. Geralmente é feito um cálculo grosseiro onde o produtor lança uma margem, chamada mark-up, sobre os custos diretos (insumos e salários), que deve cobrir os custos indiretos (alugueis, impostos, manutenção das instalações, depreciação etc) e na maior parte dos casos oferecer uma margem de lucro. Esse preço não é regulado pelo mercado, e sim pelo produtor, e assim desvia completamente da Lei da Oferta e Demanda.

Uma indústria também pode evitar a pressão da demanda sobre os preços, aumentando sua produção a um preço quase constante. Isso acontece porque raramente as empresas trabalham em sua capacidade máxima e possuem uma folga razoável para aumentar sua produção sem elevar os custos em caso de aumento súbito na demanda.

Continuam sujeitos à oferta e demanda os preços de bens do setor primário. De forma geral, não existem diferenças entre fornecedores de trigo, minério de ferro ou alface que justifiquem preços diferenciados. Também não há como aumentar a produção para atender uma mudança súbita na demanda, porque a produção dessas mercadorias é um processo extremamente longo, que em alguns casos chega a um ano. Assim, os preços estão totalmente sujeitos ao mercado.

Dessa forma, podemos verificar que oferta e demanda representam apenas uma parcela específica do mercado, praticamente invisível para o consumidor final.

Existe outro mercado onde muitos decidem aplicar oferta e demanda, esta não é válida e mesmo assim se trata de uma mercadoria não-replicável: o mercado de trabalho. Seguindo esta visão, o aumento dos salários diminuiria a quantidade de postos de trabalho disponíveis, porque os empregadores estariam dispostos a contratar menos. Parece bastante intuitivo, mas como demonstrei no post anterior, a relação entre salários e lucros não é simples como parece.

Mas mesmo pensando em uma escala micro e de forma imediatista, nem sempre os salários têm esse impacto na contratação de mão de obra. Muitas vezes existe uma quantidade mínima de trabalhadores necessária para colocar uma linha de montagem em operação ou para atingir a produção que a empresa deseja em um dado período. Para isso, é bem possível que os empresários incorporem totalmente a elevação salarial e não a repassem nos preços, dependendo da estratégia de mercado adotada. Menos contratação pode significar, por exemplo, incapacidade de atender a demanda e perda de uma fatia de mercado para a concorrência.

Deve-se notar também que salários mais baixos de jeito nenhum implicam em maior contratação. As vagas de trabalho são escassas, não existe uma necessidade ilimitada de expandi-las e em muitos casos contratações adicionais reduzem a produtividade a menos que sejam ampliadas as instalações, o que envolve uma decisão muito mais delicada.

Uma boa ilustração desse fato é a Grande Depressão. Era comum no mainstream econômico atribuir o desemprego em massa à força dos sindicatos, que impunham salários muito altos, reduziam a contratação e geravam o próprio desemprego. Economistas heterodoxos da época, como Keynes, puderam contrariar tal atribuição com uma evidência simples mas contundente: bastava sair às ruas para ver que as pessoas aceitavam qualquer coisa para ter um emprego.

"Conheço 3 ofícios, falo 3 línguas, combati por 3 anos, tenho 3 filhos e nenhum emprego há 3 meses. Eu só quero um trabalho."

“Conheço 3 ofícios, falo 3 línguas, combati por 3 anos, tenho 3 filhos e nenhum emprego há 3 meses. Eu só quero um trabalho.” – Desempregado durante a Grande Depressão

2 – Quanto mais concorrência, melhor

Assume-se genericamente que a concorrência permite um mercado mais eficiente, oferecendo produtos melhores a preços mais baixos. Quando pensamos nessa concorrência, temos uma noção que se aproxima do conceito de concorrência perfeita da Teoria Neoclássica.

Com o intuito de modelar matematicamente a economia, os teóricos neoclássicos estabeleceram uma condição hipotética denominada concorrência perfeita, onde uma série de pressupostos são feitos para viabilizar esse modelo matemático, entre os quais estão o atomismo de mercado, onde uma empresa nunca controla uma parcela do mercado grande o suficiente para definir os preços de seu setor. Essa característica é vista intuitivamente como benéfica para o mercado. Mas será que isso é verdade?

Vimos anteriormente que na prática os preços dos bens industrializados são definidos via mark-up e não pelo mercado (o que fere outro pressuposto da concorrência perfeita, a existência de muitas empresas produzindo o mesmo bem sem diferenças tecnológicas que permitam diferenciação de bens ou de processos produtivos, que gerariam preços discrepantes). O preço final depende da capacidade da empresa de reduzir seu custo unitário de produção, e empresas grandes são mais eficientes nisso. Muitas vezes essas empresas nem precisam praticar dumping para quebrar seus concorrentes, porque conseguem um preço final (com mark-up) inferior aos custos diretos das empresas menores. Isso acontece muito com os supermercados.

Grandes empresas também podem oferecer estruturas impressionantes de suporte técnico que não estão ao alcance de empresas menores. Isso naturalmente confere vantagens aos grandes produtores no mercado. Mais recursos também podem ser destinados a P&D (pesquisa e desenvolvimento), o que pode gerar inovações tecnológicas e uma gama maior de produtos, possibilitando a um produtor atender vários nichos de mercado.

No entanto, a concorrência continua tendo claras vantagens. Uma empresa concorrente pode criar um produto parecido com o seu concorrente e aprimorá-lo de uma forma que este não conseguiu, ou criar um produto com uma característica totalmente nova que não existiria sem esse concorrente adicional.

Assim, podemos concluir que a concorrência é sim benéfica na maior parte do tempo, mas não da forma que pensamos. Mais concorrência nem sempre significa preços menores ou bens e serviços melhores.

Discutindo algumas “verdades” sobre economia

Existem uma série de “verdades” que são vomitadas repetidas pela imprensa, por comentaristas, leigos e até mesmo por economistas, recebem aval e via de regra não são questionadas na maioria dos meios de comunicação. Mas quanto disso se sustenta com uma análise mais profunda?

Como diz um professor meu, tenho a impressão que as pessoas sabem economia e acabam na verdade “desaprendendo” com tudo isso. É tanta merda que falam por aí…

Antes de mais nada, preciso dizer que muito disso vem da dificuldade de se raciocinar de forma agregada. No meu breve contato com a macroeconomia tive uma certa dificuldade para entender certos conceitos, e isso vem do fato que visualizamos muito bem situações localizadas (e.g. as finanças de um indivíduo ou uma empresa), mas pensar em todo um agregado econômico não é uma tarefa fácil. E como estamos falando de macroeconomia básica, obviamente essa explicação se baseia quase integralmente nas obras de Keynes e Kalecki.

Sendo assim, decidi fazer um texto bem simples para debater alguns desses conceitos e mostrar uma outra visão sobre eles.

1 – Salários e lucros são antagônicos

Em uma escala micro, realmente são. Se eu aumentar os salários da minha empresa sem alterar o custo de produção e o preço da mercadoria, realmente terei uma parcela maior das receitas destinada aos salários e uma redução nos lucros. Mas e um aumento generalizado dos salários?

Teremos um fenômeno interessante no curto prazo: a alteração na massa total de lucros da economia é zero. Sim, você leu certo: nada muda no lucro total da economia. O que acontece é o seguinte: o lucro será deslocado para os produtores de bens de consumo.

Grosso modo, podemos separar praticamente toda a economia em bens de consumo (e.g. alimentos, roupas, carros de passeio, geladeiras) e bens de capital (e.g. fornos siderúrgicos, retroescavadeiras, fogões industriais, câmaras frigoríficas). Podemos fazer o mesmo para serviços: apesar da distinção ser um pouco mais confusa, duvido que uma pessoa física contrataria uma consultoria de RH ou uma companhia de logística.

Evidentemente, todos esses setores pagam salários e seus assalariados compram bens de consumo (por simplicidade, vamos assumir que os serviços para usuário final estão inclusos). Podemos assumir também com uma margem considerável de confiança que a poupança dos assalariados é muito pequena, tanto em relação ao seu orçamento quanto em termos absolutos frente aos empresários. Assim, os trabalhadores da indústria de bens de serviço devolverão seus aumentos quase integralmente a esse setor. No entanto, os trabalhadores da indústria de bens de capital também gastarão seu aumento no mesmo setor. Assim, temos um deslocamento do lucro em direção ao setor de bens de consumo, mas a massa total de lucros da economia permanece inalterada.

Já é possível observar um fenômeno bem interessante: se os salários aumentaram e os lucros permaneceram constantes, isso significa que a renda, logo, o PIB dessa economia já se elevou em um primeiro momento. Dessa forma, não faz sentido dizer que o aumento de salários prejudica os lucros e a capacidade de investimento de uma economia, a menos que eles tornem a contratação proibitiva.

Mas pouco tempo depois podemos perceber uma nova mudança. Os produtores de bens de consumo, atentos aos seus lucros crescentes, decidem investir na expansão da produção devido ao estímulo positivo nas vendas, e esse processo se torna mais fácil com o aumento dos lucros: afinal de contas, é mais fácil investir com capital próprio que com financiamentos. Assim, esses produtores aumentam a receita do setor de bens de capital, que recebe um estímulo positivo para ampliar sua produção. Por fim, o aumento generalizado na renda dos trabalhadores acaba incentivando toda a economia.

crescimento-economicoÉ importante notar que esse mecanismo não é uma panaceia: em primeiro lugar, a luta de classes está atuando a todo momento. Salários maiores dão aos trabalhadores uma participação maior no PIB. Em um primeiro momento isso não é um problema, porque empresário nenhum prefere uma participação maior em uma economia menor, que vai significar menos dinheiro no fim das contas. Mas isso pode acabar dando força aos sindicatos, unindo a classe trabalhadora, um movimento totalmente indesejável. Assim, mesmo com todos esses benefícios há uma relutância em aumentar os salários.

Esse caminho inevitavelmente esbarra em limitações ambientais. Para se manter em curso, é necessário haver crescimento constante da economia, caso contrário o setor de bens de capital vai à falência e o ciclo quebra. E isso implica em uma pressão crescente sobre os recursos naturais, que estão longe de ser infinitos. Mesmo se tivéssemos 100% de reciclagem, existe um limite de matéria-prima existente no planeta.

Também temos que notar que as necessidades das pessoas não são infinitas. A partir de um certo ponto os trabalhadores começarão a poupar quantidades cada vez maiores (e isso não é bom, ao contrário do que dizem por aí: explicarei adiante), o que fará o ciclo girar um pouco mais devagar e o processo começa a frear sozinho. É aí que entra o governo no modelo keynesiano, para gerar demanda adicional em momentos onde esse sistema não funciona sozinho. Também por isso defende-se a existência de serviços públicos: é necessário haver esse emprego dos fatores de produção independentemente da condição financeira da população.

2 – Produção gera renda, que é gasta comprando a produção. Logo, não há crise.

Esse princípio é conhecido na teoria econômica como Lei de Say, e é um dos pressupostos mais importantes da economia ortodoxa. Tal princípio implica que o dinheiro parado possui utilidade nenhuma e que ele sempre será gasto. Isso simplesmente não é verdade, e a Lei de Say é imprecisa (ou mesmo errada) em vários níveis.

Em primeiro lugar, a produção não gera renda. Pode gerar renda instantânea para os trabalhadores empregados na mesma, mas em termos agregados a geração de renda é zero, pois a mesma significa prejuízo por parte dos empresários. A renda só é gerada quando ocorre a venda dessa produção. Sem venda, sem renda. Para tal, cito Marx:

M — D. Primeira metamorfose da mercadoria ou venda. O salto do valor da mercadoria do corpo da mercadoria para o corpo do ouro é, como o designo noutro local, o salto mortal da mercadoria. Se ele falha, não é a mercadoria que estoira, mas é-o certamente o possuidor da mercadoria.

– O Capital, livro 1, capítulo 3, seção 2

Em seguida, não se gasta renda. Renda é um fluxo, uma entrada de dinheiro. O que se gasta é poder de compra, o estoque de valor que um agente econômico tem em seu poder. E esse gasto não necessariamente é integral: pode-se estocar dinheiro pelos motivos mais diversos. Alguns planejam gastar esse dinheiro no futuro, que pode ser muito distante ou mesmo nunca chegar e o dinheiro ficar parado até a morte dessa pessoa; outros gastam com coisas que não são a produção, como terrenos, ouro, moeda estrangeira e ativos financeiros (lembrando que, a menos que o ativo financeiro seja comprado no momento de abertura, ele é simplesmente revendido e nenhum centavo sequer é dirigido diretamente para produção ou consumo); e outros simplesmente decidem entesourá-lo porque acreditam, digamos, que o dinheiro sofrerá valorização no futuro e aquela quantia em dinheiro vivo será útil, ou não confiam em bancos.

Assim podemos ver que a Lei de Say está “meio errada” em absolutamente todos os pontos. E se é assim, o princípio como um todo está errado.

3 – Precisamos de poupança para ter crescimento econômico

Esse é o ponto que dá mais nó na cabeça de todo mundo, e curiosamente o que mais parece absurdo de todos. Já mostramos anteriormente que não realizar um consumo não significa disponibilizar o dinheiro para realizar investimentos devido a uma série de “furos” no sistema. Mas precisamos definir o que é investimento. Em termos econômicos, investimento é um conceito bastante específico: significa a compra de máquinas, equipamentos e instalações para a produção de bens e serviços (i.e. formação de capital fixo). Ou seja, comprar ações e terrenos não são investimentos, e sim aplicações.

poupanca-porcos

O investimento precisa de poupança para acontecer? NÃO! Ele pode acontecer por meio de capital próprio, por que não? O crédito também não depende exclusivamente de poupança. Raramente um banco tem dinheiro em caixa para pagar todos os depositantes e credores ao mesmo tempo, mas empresta o dinheiro do mesmo jeito. Se feito de forma responsável (o que é uma tarefa titânica, diga-se de passagem), o banco consegue criar dinheiro que não existe emprestando parte do dinheiro que tecnicamente não é dele e recebendo uma quantia maior de volta. Assim, o investimento não necessitou de poupança.

Na verdade, é o investimento que determina a poupança. Quando uma empresa decide investir, o produtor daquele bem de capital é pago. Podemos colocar esse acontecimento como o “início” do ciclo da renda. Ao receber esse dinheiro, ele está integrando completamente a poupança do sistema naquele momento. Quando esse dinheiro for gasto, ele passará a integrar a poupança do próximo nível de agentes econômicos, enquanto a parcela guardada constituirá a poupança do primeiro. Podemos repetir essa série infinitamente. Não existe mágica: é impossível aumentar o nível de investimento através da poupança. No momento que decidimos poupar, estamos tirando aquele dinheiro de circulação e diminuindo os fluxos posteriores. Mas quando ocorre o investimento esse montante aumenta. Vale lembrar que novos investimentos geralmente implicam em novos empregos e mais salários pagos, a menos que se trate de uma inovação tecnológica que diminua a necessidade de mão-de-obra. Sendo assim, é um contrassenso tentar aumentar o investimento parando de gastar.

Essa ideia é tão contraditória que contraria o próprio estímulo para o investimento: o aumento nas vendas. Se os agentes econômicos estão poupando, não estão consumindo, e assim não estão comprando. Logo, os empresários não estão vendendo e não têm motivos para investir e ampliar a produção. Quem em sã consciência produziria MAIS quando está vendendo pouco?

Espero poder ajudar vocês leitores com essas explicações básicas sobre os conceitos apresentados. Quem sabe agora não podemos ter respostas diferentes para aquilo que sempre repetem e fazem parecer tão verdadeiro? Se repetirem isso aí, já sabem:

Meu posicionamento político e econômico

Desde o início deste blog eu já tinha uma ideia de posicionamento político (que já mudou consideravelmente, diga-se de passagem), mas não tinha muito clara qual seria a minha proposta. Vim amadurecendo-a nesse meio tempo, e hoje já tenho um projeto mais claro. Ainda está em estágio bem preliminar, ou assim espero, porque eu ainda tenho só 18 anos e todo um curso de economia pela frente…

Então sem mais delongas, vamos lá:

Resultado

Meu "politicômetro", bem pertinente de ser lembrado agora

Meu projeto é  essencialmente o que se pode chamar de “esquerdista”, apesar desse tipo de separação entre “esquerda” e “direita” ser um tanto oca nos dias de hoje. Concordo com a máxima marxista de “de cada qual, de acordo com suas habilidades; a cada qual, de acordo com suas necessidades”, mas sem seguir estritamente alguma “cartilha” que eu já tenha lido, e fazendo um apanhado de outras ideias que considero boas.

Economia

Vejo como o maior problema do capitalismo como é conduzido hoje o corporativismo. Grandes corporações fazem práticas como monopólios e cartéis, que efetivamente destroem o livre mercado (uma ideia essencialmente boa) e acabam prejudicando o consumidor com preços abusivos e serviços de qualidade inferior. É também pelo mesmo motivo que também sou contra a economia completamente subjugada ao Estado.

Na minha visão ainda de leigo interessado por economia,vejo a liberdade irrestrita de mercado como insustentável. Como trata-se de uma competição, alguém vai acabar ganhando. Quando isso acontecer, esse vencedor terá um enorme poder econômico, e consequentemente político, por meio do famigerado lobby, e exercerá controle. Desta forma, novos concorrentes dificilmente conseguirão estar a altura, e assim a liberdade do mercado está ameaçada. Assim, vejo como importante a presença de um incentivo estatal para novas empresas e uma regulamentação forte contra práticas como monopólios e cartéis, para garantir a continuidade da competição, e assim manter altos os padrões de qualidade dos serviços prestados. (Apesar de eu preferir a cooperação à competição, percebo que é ingênuo imaginar que uma sociedade cooperativa funcionaria hoje, da mesma forma que considero ingênuo achar que anarquia funcionaria hoje, apesar de ser na minha opinião a meta para a humanidade.)

Também vejo a especulação como uma prática bastante negativa, além de considerar indigno alguém criar dinheiro simplesmente comprando e vendendo papéis. Acredito que a especulação deveria ser exterminada. Inclusive, puxando para o lado social, acredito que uma solução razoável seria proibir que proprietários mantivessem um terreno fechado por períodos muito longos, sendo obrigados a alugar, vender ou encontrar uma solução parecida. Isso também poderia resolver o défict habitacional, aumentando a oferta de terrenos e assim diminuindo os preços.

Política

Se ele tivesse dito "Fodeu!" em um pronunciamento público, hoje isso seria uma frase histórica.

Citando Winston Churchill, “a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as outras formas que tem sido tentadas de tempos em tempos”. A democracia representativa é a forma de governo melhor consolidada que existe hoje, e acredito que deveria continuar sendo utilizada, mas visando uma transição para a democracia direta, na qual as próprias pessoas poderiam votar diretamente nas decisões, como já acontece em plebiscitos e referendos, mas tornando-os cada vez mais frequentes.

Acredito que os políticos, principalmente os parlamentares, deveriam ser apenas representantes, e não políticos profissionais. O político deveria ser tratado da forma como ele é atualmente na Suécia. O vídeo abaixo (OLD, mas não menos excelente por isso) demonstra perfeitamente.

Também defendo que a eleição de parlamentares deveria ser feita diretamente pelo número de votos, e não com esses  mecanismos de “puxar votos” para um determinado partido.

 

Sociedade e Estado

Como já deve ter ficado bem claro no restante dos meus posts, e até mesmo neste, não defendo o estado mínimo, mas também considero ineficiente um modelo completamente estatizado. As funções que deveriam caber ao Estado na minha opinião seriam garantir para todos os cidadãos em dia com suas obrigações cívicas saúde, educação, segurança, saneamento, acesso a comunicações e eletricidade, além de oferecer subsídios para alimentação e habitação a cidadãos necessitados.

A implantação de infra-estrutura de saneamento, transporte, eletricidade e comunicações seria feita pelo Estado, mas sua manutenção e o oferecimento desse serviço para o cliente final seria feito por meio de empresas privadas, desde que houvesse uma concorrência real entre empresas. Por exemplo, não existe concorrência em concessões de estradas, porque dificilmente alguém mudaria de caminho porque está insatisfeito com o serviço da concessionária de determinada estrada (isso quando não é impossível evitar uma empresa completamente, e.g. quando esta controla todas as estradas de uma região). Também não há concorrência quando apenas uma companhia de eletricidade ou saneamento detém a concessão de uma cidade inteira, ou quando uma linha de transporte público é detida por apenas uma empresa (e geralmente é pior ainda, pois é formado um cartel com todas as empresas de transporte público de uma cidade).

 

Conclusão

Essa é a opinião que eu, ainda como leigo meramente interessado por política e economia, tenho a respeito de como seria um bom sistema político e econômico. Como disse no início, ainda tenho muito pela frente e imagino que muita coisa mudará, assim como muito já mudou antes.

Tempestade em gota d’água

Vocês já devem ter visto aquele vídeo dos atores globais falando contra Belo Monte, não? [1]

Hoje vi este outro aqui. [2]

Este segundo vídeo, feito por alunos e professores da Unicamp, independente de seu ponto de vista é bem mais proveitoso, porque trás informação de verdade e não só sensacionalismo. O site que está na descrição do vídeo tem umas informações bem interessantes, explica melhor o que foi dito no vídeo.

E tendo essas informações decidi escrever este post.

Para início de conversa, não tenho ainda uma opinião formada sobre Belo Monte, ainda flutua bastante a cada vez que levantam um ou outro ponto, mas tenho algumas considerações a fazer seguindo certos pontos de vista.

Primeiramente, vamos analisar do ponto de vista econômico, minha área de maior interesse e que cursarei em breve. A usina de Belo Monte não será a “salvação da economia brasileira”, mas pode oferecer um impulso considerável: primeiro, por evitar (ou ao menos adiar) um possível colapso energético brasileiro, que interromperia o crescimento econômico sentido recentemente; segundo, gerar empregos (em sua esmagadora maioria, temporários, mas é melhor do que nada); terceiro, por trazer algum desenvolvimento à região. Admito, não sei muito bem como se daria esse desenvolvimento, mas é fato que a existência da usina em si já movimentaria capitais na região e haveriam vagas de empregos (estes permanentes) dentro da usina.

Agora adentraremos na questão geopolítica. Aqui podemos dizer que Belo Monte é uma jogada de mestre: promovendo a ocupação do território, o Brasil garante o uti possidetis: quem ocupa o território de fato efetivamente o controla. A ocupação reduziria as chances de pressões internacionais questionarem a soberania brasileira na Amazônia, por exemplo.

Mas há questões não tão positivas nesta obra. A primeira delas é a energética: com a construção de mais uma usina hidrelétrica, perpetuamos o padrão de dependência das hidrelétricas que mantemos há praticamente um século. Em praticamente todas as coisas da vida é uma péssima ideia depender de uma coisa só, e energia está longe de ser uma exceção. Mesmo sendo muito mais viável que a solar e mais confiável que a eólica, temos exemplos como Balbina, uma catástrofe ambiental e um dos maiores erros de engenharia da história da humanidade que merece um post a parte, e o apagão de 2001-2001 para demonstrar que, como qualquer fonte de energia, a hidrelétrica tem suas falhas. Como não existe energia 100% limpa, a melhor solução seria diversificar, e não continuar fortalecendo o que temos há anos como única fonte energética (cerca de 70% da eletricidade do país, o que na prática significa uma dependência quase total). Nosso território oferece boas condições para energia eólica e solar, e nossa tecnologia nuclear se desenvolveu relativamente bem com Angra 2, com a vantagem de estarmos praticamente imunes a grandes abalos sísmicos. Em suma, a solução mais provável para o futuro problema energético seria a diversificação. Construir mais hidrelétricas apenas adiaria o inevitável.

Por último, e de jeito nenhum menos importante, temos o desalojamento dos ribeirinhos e dos indígenas. Esta questão até agora me impede de tomar um posicionamento mais firme sobre a obra. Por um lado devemos considerar o valor que a terra possui para essas populações, principalmente os indígenas. Simplesmente levá-los de um lado para o outro não é tão simples quanto parece. Não devemos repetir imbecilidades como “eu já mudei de casa três vezes e não perdi a perna por isso”, contidas neste incrível vídeo que colocarei abaixo. [3]

Por outro lado, muitas vezes questiono certas políticas adotadas com os indígenas. Devemos realmente isolar esses povos em uma bolha e mantê-los intocáveis? Se a usina fosse construída no centro-sul haveria tanto problema nessa questão? Eu realmente não sei muito bem o que pensar por esse lado.

[1] BTW, entrei no vídeo para postá-lo aqui e vi como ele tem boa aprovação nos “joinhas” e uma desaprovação bem grande nos comentários. Pessoal doido esse do YouTube!

[2] Conheço de vista uma menina que participou desse vídeo. Não que isso venha ao caso…

[3] Essa senhorita possui um bom histórico de boçalidade e generalizações rasas de outros vídeos. Coroando com chave de cocô, ela fechou os comentários e os “joinhas” do vídeo. Legal, né?