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Por que preciso pertencer?

Vocês devem estar habituados a minha displicência com minhas postagens, não?

Pois então, há duas semanas atrás estive em uma festa junina da minha família que acabou se tornando um quentão / vinho quente filosófico (venhamos e convenhamos, muito mais interessante que café filosófico. A menos que este contenha conhaque). Acabamos discutindo sobre religião, ateísmo, humanismo e coisas do gênero. À mesa tínhamos além de mim um ateu (biólogo, por sinal. O Dawkins da mesa, de uma certa forma…), uma espírita e uma sem religião, mas com sua espiritualidade. Nesta última focarei minha discussão. Em um certo ponto ela disse mais ou menos assim:

Eu ando me identificando com o espiritismo, mas mesmo assim não consigo aceitar tudo. As vezes acho que falta disciplina para seguir uma religião…

E aqui seguem minhas considerações sobre isso:

Em primeiro lugar, ninguém deve se culpar por “não ter disciplina para seguir uma religião”. Muito pelo contrário, isso é ótimo! Quem faz o seu caminho é VOCÊ, e mais ninguém! As suas vivências, a sua observação, as suas soluções. Principalmente em um assunto subjetivo como esse.

Você deve fazer seu caminho. Diferentemente da União Soviética, onde o caminho faz VOCÊ!!

Eis um exemplo de uma livre-pensadora que ainda não sabe que o é. É uma coisa engraçada essa necessidade de pertencer, seguir uma doutrina, uma ideologia. E sei que não estou livre disso.

Por muito tempo debulhei as escolas filosóficas e algumas religiões orientais, como o taoísmo, tentando encontrar uma onde me encaixo. E um dia encontrei o humanismo. Me identifiquei na hora com essa luta pela humanidade, por uma vida melhor para todos. E ainda mais com a descrição que o autor do livro de filosofia fez, onde descobri que Star Trek, com seus deuses falsos que sempre atrapalham as pessoas e o ideal de “ir bravamente onde nenhum homem jamais esteve”, é completamente humanista. O escotismo também foi algo muito significativo nessa “jornada” para pertencer. Encontrei uma ordem com código de honra, simbologia, tradição, praticamente uma ordem de cavalaria. Mas ao contrário das ordens militares religiosas, um lugar onde sou aceito*.

Mas fico pensando: por que sentimos essa necessidade? Ou melhor, por que alguns sentem? Sei que outros não, e até muito pelo contrário, têm repulsa de participar de uma ordem ou seguir uma ideologia.

Tenho aqui minha teoria. Isso é de certa forma uma vontade de ter companhia, de se sentir aceito e acolhido. Mas com o advento da Internet [1999 feelings] isso não é mais necessário. Podemos nos encontrar em grupos de discussão que se reúnem justamente em torno do livre pensamento, olha só que lindo!

Então é isso, não tenham medo de não seguir. Lembrem-se sempre que não importa o que vocês queiram seguir ou deixar de seguir, tem maluco pra tudo vocês não estão sozinhos.

* De certa forma não sou, porque um dos deveres do escoteiro é para com Deus. Mas tem uma “gambiarra” aí: também são aceitos como deuses o Cosmos, a natureza, a coletividade, whatever. Pra mim isso não é deus, então a rigor eu sou ateu. Mas tenho meu comprometimento com a coletividade. Problema resolvido!