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Bolsa-Cremogema para Gerald Thomas

Tadinho de você, Gerald Thomas. Você mete a mão debaixo do vestido da Nicole Bahls. A imprensa pega super leve com você, até coloca “ataque” entre aspas na manchete. NINGUÉM no evento fez alguma cosia pra ajudar a moça, que realmente não gostou da parada. E você ainda diz que foi atacado e sofreu sensacionalismo. Não dá pra aguentar esse mundo moderno, tá muito difícil ser quem você quer ser né? Sei bem como é. Tudo que você faz vem alguém reclamar, né?

Sério, dá uma olhada nessa cara. Ela tá literalmente rindo pra não chorar. É tão difícil perceber?

Sério, dá uma olhada nessa cara. Ela tá literalmente rindo pra não chorar. É tão difícil perceber?

Olha, você merece o Troféu Umbigo de Ouro e a Bolsa-Cremogema. Meus parabéns!

O programa se chama “PANICO” ! E eles vem com tudo! Mas são gente finíssima. Depois das brincadeiras, cameras e luzes apagadas, nós nos damos as mãos (tanto em SP quanto aqui no Rio) e rimos de tudo, nos damos abraços e falamos “valeu, foi ótimo!”.

Legal, né? Tirando a parte que ela NÃO gostou, disse que ficou triste com isso. Vai dizer o que agora, que ela foi manipulada pela mídia pra reclamar? Que hackearam o Twitter dela?

Minha amiga fez um bom post em repúdio, mas acho que tenho algo a complementar. A cultura do estupro é TÃO escrota que qualquer tipo de reação contra isso, mesmo que seja feita de forma leve, já corre o risco de ser tratada como exagero. Quero saber o que o Zé Toddynho bolinador de saias aceitaria como notícia cabível e não-sensacionalista. “Brincadeira descontraída acaba em leve desentendimento”? Sério, acorda pra vida, Gerald Thomas. Cê tá bêbado, vai pra casa!

Eu, Gerald Thomas, faço a olho nu, na frente dos fotógrafos, das câmeras, das luzes, o que esse bando de carecas e pseudo moralistas gostaria de estar fazendo atrás de portas fechadas, com as luzes apagadas! EYES WIDE SHUT

Se eu abaixar as calças e coçar o cu no meio da rua posso me orgulhar por ser corajoso e fazer em público o que todo mundo queria fazer em particular também? Legal, sempre quis ser fodão!

E acho que nem preciso falar muito disso aqui:

Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO (…)

Já existe UMA PORRADA de post EXCELENTES sobre cultura do estupro. Inclusive esse mesmo josnei admitiu (sort of) que não deve usar mulher como objeto. Só da boca pra fora, certeza.

coisas-que-causam-estuproMuito já foi dito sobre como roupa não é convite, sobre como a nossa sociedade culpa a mulher de todas as formas, inocenta o homem até o último suspiro, joga um peso IMENSO nas costas de quem mais precisa de apoio (e pior, muitas vezes isso vem de quem mais deveria apoiar, como a família, os amigos e o parceiro). Acho que não cabe discutir isso mais a fundo aqui, porque esse era um post pra xingar o cara que muito provavelmente ganhou com folga o título de imbecil do mês. E essa é a minha contribuição de repúdio quase no fim do dia.

Por que ter medo de rótulos?

Não sei se vocês lembram, mas há bastante tempo eu fiz um post sobre a necessidade de algumas pessoas pertencerem a grupos. Mas o que eu tenho percebido é a tendência contrária: as pessoas têm apresentado um medo irracional de ser rotuladas.

Vamos primeiro tentar entender como funcionam os rótulos. Eles acontecem de forma bastante natural: você precisa entender com quem está lidando, qual o conjunto de regras e premissas das quais a pessoa parte. Para fazer isso, você precisa de uma amostra da opinião da pessoa, que é apresentada em um debate. A partir disso, acabamos traçando uma tendência, que nos permite prever alguns posicionamentos com uma confiabilidade interessante (principalmente quando obtemos mais experiência em debates).

Precisamos dar nome aos bois, e foram concebidas ao longo da história centenas de correntes ideológicas para isso, e é assim que surgem os rótulos. Eles não são totalmente arbitrários e necessariamente maléficos, como alguns têm assumido recentemente. Têm seu motivo de ser: ideologias são baseadas em sequências lógicas, as conclusões são extraídas em série umas das outras de acordo com um conjunto de partida de conhecimentos, premissas e regras. Assim, quando uma pessoa começa a se aproximar bastante de uma corrente ideológica, é muito provável que acabe seguindo bastante alinhada com esse raciocínio. Principalmente porque não existimos no vácuo, praticamente todos fomos expostos à maioria das correntes ideológicas existentes e acabamos usando-as como base argumentativa e ponto de partida, mesmo sem saber.

Os rótulos têm seu lado ruim? SIM!!! Às vezes extrapolamos esse mecanismo de traçar tendências e passamos a colocar pessoas à força em rótulos, exigir lealdade a uma causa de alguém que nunca a prometeu em primeiro lugar, assumir posicionamentos que não foram revelados e se mostram falsos (construindo sem querer um espantalho da pessoa). Também podem levar pessoas a se fecharem em seus rótulos, se auto-sugestionarem a aceitar um pacote de ideologia por completo, rejeitarem influências externas e fazerem vista grossa para os próprios erros, disparando um fanatismo ideológico. Mas rótulos são intrinsecamente ruins? Não. Assim como ideologias não são ruins por si só.

Por que ter medo de rótulos?

Por que ter medo de rótulos?

No geral, rótulos não passam de tentativas de identificar o interlocutor, “reconhecer o terreno” da discussão, conhecer as premissas e os posicionamentos de todos .

E o que está ficando mais ridículo em todas essas discussões, nesse medo irracional de rótulos, é que não podemos mais apontar essas tendências. Parece que somos proibidos de rotular, como se isso fosse uma ofensa gravíssima!

Pense no seguinte cenário: uma pessoa apresenta consistentemente toda a lógica argumentativa associada a um certo rótulo, a ponto de ter até os mesmos argumentos que essas pessoas. E vamos mais a fundo: esse rótulo nem representa uma ideologia per se, e sim um comportamento presente no senso comum (e bastante indesejável ultimamente, diga-se de passagem). Como a pessoa quer o direito de, frente a tudo isso, ainda sim não ser rotulada?

Suponhamos que se trate de alguém que fez vários comentários racistas. A pessoa começou falando contra as cotas, defendendo “meritocracia”, dizendo que cotas são medidas racistas. Depois seguiu para dizer que não há necessidade de políticas públicas contra o racismo, que tudo isso é discriminação contra o branco, que “orgulho negro” e “orgulho branco” são a mesma coisa. A seguir, colocou que nunca viu negros ocupando lugares de relevância e atribuiu isso ao próprio negro, e não ao seu contexto. E para fechar com chave de cocô, se justificou dizendo que “não é racista e até tem amigos negros”. Mas se incomoda se eu disser que é racista, diz que eu acuso todas as pessoas que discordam de mim e que estou tentando padronizar o pensamento. Faz algum sentido?

Assim, devemos tomar cuidado tanto em discriminar quem participa de grupo nenhum quanto em detestar todos os rótulos. Até porque não tem jeito: você vai ganhar o rótulo de “do contra”, vai ser rotulado como “a pessoa que odeia rótulos”. E aí, como fica?

Se preferir, tem esse rótulo aqui. E milhares de outros também!

Se preferir, tem esse rótulo aqui. E milhares de outros também!

Sororidade, do feminismo para o proletariado

Tive uma reflexão sobre um paralelo que poderia haver entre o feminismo e a luta do proletariado. Em ambas as causas existe desunião dentro da categoria que luta (ou deveria estar lutando) por essa causa, e a sororidade* deveria ser incentivada. Essa introdução ficou um pouco confusa? Não sabe o que é sororidade? Vou explicar.

Uma reclamação bastante recorrente no feminismo é a de que não há uma união entre as mulheres como há entre os homens, e isso dificulta ainda mais a luta contra o patriarcado. Assim, seria necessário criar o sentimento de sororidade (do latim soror, irmã, é o feminino de “fraternidade”) entre as mulheres e diminuir a competição e a discórdia entre elas, alimentadas pelo patriarcado, que de forma geral tornou todas as mulheres competidoras em potencial pela atenção masculina. Sabe aquela história de que todas as mulheres são víboras traiçoeiras e nunca são amigas de verdade umas das outras? Então…

Algo semelhante ocorre dentro da classe trabalhadora. De forma muito parecida com o patriarcado, o capital emprega muito bem a estratégia de dividir para conquistar, dificultando a solidariedade entre os trabalhadores. Percebemos isso, por exemplo, quando há uma greve e a primeira coisa que as pessoas (em sua esmagadora maioria, trabalhadores) fazem é se lamentar ou reclamar pela falta do serviço do qual dependem. Simpatizar pela luta daqueles trabalhadores passa longe: já temos nossas vidas muito ocupadas em busca da sobrevivência, do crescimento profissional e do sucesso.

Vejo que as duas causas têm um ponto em comum para trabalhar: construir essa cooperação. Assim como as mulheres precisam parar de acusar umas às outras de “vadias”, de disputar pelos “bons partidos” e cooperar para superar juntas as situações de abuso e humilhação, abrir seus espaços em meios ainda dominados por homens e fortalecer sua auto-estima em conjunto, os trabalhadores precisam parar de acusar grevistas e outros manifestantes de serem vagabundos que deveriam ser demitidos, de reclamar por não poder ter seu serviço e entrar para a luta, se manifestar por condições melhores para esses trabalhadores (que muitas vezes recebem pouco mesmo prestando serviços com custos elevados ao consumidor) e estar atentos à exploração no seu próprio meio também.

Imagem tirada da Anarcomiguxos

Imagem tirada da Anarcomiguxos

Termino colocando minha opinião fecal: a sororidade também deve ter seus limites, pois a tolerância com os intolerantes é um caminho certo para destruir toda a tolerância que ainda existe. Parceria com operário pelego, que apóia empresários em detrimento dos seus colegas de classe e aplaude sua própria exploração? Com mulher antifeminista por opção (e não por ignorância), que faz questão de legitimar o patriarcado? Tô fora!

 

* Usei “sororidade” também para o proletariado por dois motivos: criar uma ligação com o feminismo e quebrar a normatividade masculina.

Se dê ao respeito!

As pessoas precisam aprender a se dar ao respeito. E isso nada tem a ver com o que geralmente é dito sobre respeito.

Dar-se ao respeito é respeitar a si mesmo: suas vontades, seus gostos, seu estilo, suas opiniões. É respeitar o seu próprio ritmo, suas próprias capacidades, não fazer mais ou menos que isso apenas por pressões exteriores. É não se deixar abalar pela patrulha alheia, não se curvar aos desejos daqueles que buscam controlar os outros, principalmente sob o pretexto de “ser respeitado”. Aquele que exige um certo comportamento para “ser respeitado” é de fato quem mais desrespeita o próximo.

Seja como a Jack, de Mass Effect. Ela é careca. Ela é tatuada. Ela fala palavrão. E nada disso é da sua conta.

Vivemos em um mundo onde o respeito deve ser conquistado, e isso não pode ser feito pela submissão. O respeito nasce da auto-afirmação, da força do indivíduo. Aquele que se curva só para ganhar respeito é uma pessoa quebrada, que não pode reagir e que, aos olhos do mundo, passa a mensagem de que pode ser usada. A forma de quebrar isso é pela auto-afirmação, pela certeza de quem a pessoa é, principalmente a certeza de que é um indivíduo em constante transformação, pela tomada do controle de suas próprias decisões e de seus próprios desejos.

Mas obviamente esse é só um lado da moeda. Outra máxima, talvez mais importante que tudo que foi dito antes, é: RESPEITE PARA SER RESPEITADO! Teríamos um ambiente muito mais tranquilo e habitável se não houvesse a constante tentativa de quebrar as outras pessoas. Mas infelizmente temos que aprender a sobreviver neste mundo enquanto tentamos construir outro. E para podermos fazer isso, temos que aprender a nos respeitar antes de mais nada.

Esse é o verdadeiro exemplo de se dar ao respeito!