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Discutindo algumas “verdades” sobre economia II

Fiz um primeiro post sobre o assunto há mais de um mês e nesse meio tempo juntei mais conceitos repetidos pelo senso comum sobre economia. Diferente do anterior, esses dois pontos estão um tanto interligados e são de fato meias verdades. Sem mais delongas:

1 – Oferta e demanda

A Lei da Oferta e Demanda diz que os preços das mercadorias são regulados pelo mercado de acordo com suas quantidades e o número de compradores. Essa situação equilibra os interesses de compradores e vendedores e possibilita uma situação onde o maior número de pessoas está satisfeita ao mesmo tempo e não é possível beneficiar uns sem prejudicar outros (o que é conhecido nas ciências sociais como eficiência de Pareto).

Gráfico típico de oferta e demanda, conhecido na teoria econômica como tesoura marshalliana

Gráfico típico de oferta e demanda, conhecido as vezes na teoria econômica como tesoura marshalliana

Podemos ver no gráfico como funciona o equilíbrio de mercado. O ponto de equilíbrio é, nas dadas condições, eficiente à Pareto: os ofertantes teriam custos maiores para ofertar mais mercadorias, e por isso, colocariam preços maiores, para o qual haveria menos compradores.

Esse princípio parece bastante lógico, mas na verdade representa apenas uma parcela do mercado. Que vem ficando cada vez menor, diga-se de passagem.

A esmagadora maioria dos bens de consumo hoje são industrializados e diferenciados. Isso significa que cada fabricante trás um produto com uma vantagem específica em relação a seus concorrentes, e por isso agrada um certo nicho do mercado. Dessa forma os preços não são regulados pelo mecanismo de oferta e demanda, porque não existe substituição perfeita entre os bens: não é uma questão de apenas procurar a marca mais barata, porque ela pode não agradar ao consumidor em um aspecto específico. Uma boa forma de ilustrar essa questão é a indústria automobilística. Algumas marcas se especializam em potência, outras, em design, conforto, assistência técnica, acessórios…

Assim, a regulação de preços de facto acaba ocorrendo em outro padrão, que originalmente era imaginado para mercados monopolizados. A empresa, e não o mercado, decide os preços baseado no custo. Geralmente é feito um cálculo grosseiro onde o produtor lança uma margem, chamada mark-up, sobre os custos diretos (insumos e salários), que deve cobrir os custos indiretos (alugueis, impostos, manutenção das instalações, depreciação etc) e na maior parte dos casos oferecer uma margem de lucro. Esse preço não é regulado pelo mercado, e sim pelo produtor, e assim desvia completamente da Lei da Oferta e Demanda.

Uma indústria também pode evitar a pressão da demanda sobre os preços, aumentando sua produção a um preço quase constante. Isso acontece porque raramente as empresas trabalham em sua capacidade máxima e possuem uma folga razoável para aumentar sua produção sem elevar os custos em caso de aumento súbito na demanda.

Continuam sujeitos à oferta e demanda os preços de bens do setor primário. De forma geral, não existem diferenças entre fornecedores de trigo, minério de ferro ou alface que justifiquem preços diferenciados. Também não há como aumentar a produção para atender uma mudança súbita na demanda, porque a produção dessas mercadorias é um processo extremamente longo, que em alguns casos chega a um ano. Assim, os preços estão totalmente sujeitos ao mercado.

Dessa forma, podemos verificar que oferta e demanda representam apenas uma parcela específica do mercado, praticamente invisível para o consumidor final.

Existe outro mercado onde muitos decidem aplicar oferta e demanda, esta não é válida e mesmo assim se trata de uma mercadoria não-replicável: o mercado de trabalho. Seguindo esta visão, o aumento dos salários diminuiria a quantidade de postos de trabalho disponíveis, porque os empregadores estariam dispostos a contratar menos. Parece bastante intuitivo, mas como demonstrei no post anterior, a relação entre salários e lucros não é simples como parece.

Mas mesmo pensando em uma escala micro e de forma imediatista, nem sempre os salários têm esse impacto na contratação de mão de obra. Muitas vezes existe uma quantidade mínima de trabalhadores necessária para colocar uma linha de montagem em operação ou para atingir a produção que a empresa deseja em um dado período. Para isso, é bem possível que os empresários incorporem totalmente a elevação salarial e não a repassem nos preços, dependendo da estratégia de mercado adotada. Menos contratação pode significar, por exemplo, incapacidade de atender a demanda e perda de uma fatia de mercado para a concorrência.

Deve-se notar também que salários mais baixos de jeito nenhum implicam em maior contratação. As vagas de trabalho são escassas, não existe uma necessidade ilimitada de expandi-las e em muitos casos contratações adicionais reduzem a produtividade a menos que sejam ampliadas as instalações, o que envolve uma decisão muito mais delicada.

Uma boa ilustração desse fato é a Grande Depressão. Era comum no mainstream econômico atribuir o desemprego em massa à força dos sindicatos, que impunham salários muito altos, reduziam a contratação e geravam o próprio desemprego. Economistas heterodoxos da época, como Keynes, puderam contrariar tal atribuição com uma evidência simples mas contundente: bastava sair às ruas para ver que as pessoas aceitavam qualquer coisa para ter um emprego.

"Conheço 3 ofícios, falo 3 línguas, combati por 3 anos, tenho 3 filhos e nenhum emprego há 3 meses. Eu só quero um trabalho."

“Conheço 3 ofícios, falo 3 línguas, combati por 3 anos, tenho 3 filhos e nenhum emprego há 3 meses. Eu só quero um trabalho.” – Desempregado durante a Grande Depressão

2 – Quanto mais concorrência, melhor

Assume-se genericamente que a concorrência permite um mercado mais eficiente, oferecendo produtos melhores a preços mais baixos. Quando pensamos nessa concorrência, temos uma noção que se aproxima do conceito de concorrência perfeita da Teoria Neoclássica.

Com o intuito de modelar matematicamente a economia, os teóricos neoclássicos estabeleceram uma condição hipotética denominada concorrência perfeita, onde uma série de pressupostos são feitos para viabilizar esse modelo matemático, entre os quais estão o atomismo de mercado, onde uma empresa nunca controla uma parcela do mercado grande o suficiente para definir os preços de seu setor. Essa característica é vista intuitivamente como benéfica para o mercado. Mas será que isso é verdade?

Vimos anteriormente que na prática os preços dos bens industrializados são definidos via mark-up e não pelo mercado (o que fere outro pressuposto da concorrência perfeita, a existência de muitas empresas produzindo o mesmo bem sem diferenças tecnológicas que permitam diferenciação de bens ou de processos produtivos, que gerariam preços discrepantes). O preço final depende da capacidade da empresa de reduzir seu custo unitário de produção, e empresas grandes são mais eficientes nisso. Muitas vezes essas empresas nem precisam praticar dumping para quebrar seus concorrentes, porque conseguem um preço final (com mark-up) inferior aos custos diretos das empresas menores. Isso acontece muito com os supermercados.

Grandes empresas também podem oferecer estruturas impressionantes de suporte técnico que não estão ao alcance de empresas menores. Isso naturalmente confere vantagens aos grandes produtores no mercado. Mais recursos também podem ser destinados a P&D (pesquisa e desenvolvimento), o que pode gerar inovações tecnológicas e uma gama maior de produtos, possibilitando a um produtor atender vários nichos de mercado.

No entanto, a concorrência continua tendo claras vantagens. Uma empresa concorrente pode criar um produto parecido com o seu concorrente e aprimorá-lo de uma forma que este não conseguiu, ou criar um produto com uma característica totalmente nova que não existiria sem esse concorrente adicional.

Assim, podemos concluir que a concorrência é sim benéfica na maior parte do tempo, mas não da forma que pensamos. Mais concorrência nem sempre significa preços menores ou bens e serviços melhores.

Discutindo algumas “verdades” sobre economia

Existem uma série de “verdades” que são vomitadas repetidas pela imprensa, por comentaristas, leigos e até mesmo por economistas, recebem aval e via de regra não são questionadas na maioria dos meios de comunicação. Mas quanto disso se sustenta com uma análise mais profunda?

Como diz um professor meu, tenho a impressão que as pessoas sabem economia e acabam na verdade “desaprendendo” com tudo isso. É tanta merda que falam por aí…

Antes de mais nada, preciso dizer que muito disso vem da dificuldade de se raciocinar de forma agregada. No meu breve contato com a macroeconomia tive uma certa dificuldade para entender certos conceitos, e isso vem do fato que visualizamos muito bem situações localizadas (e.g. as finanças de um indivíduo ou uma empresa), mas pensar em todo um agregado econômico não é uma tarefa fácil. E como estamos falando de macroeconomia básica, obviamente essa explicação se baseia quase integralmente nas obras de Keynes e Kalecki.

Sendo assim, decidi fazer um texto bem simples para debater alguns desses conceitos e mostrar uma outra visão sobre eles.

1 – Salários e lucros são antagônicos

Em uma escala micro, realmente são. Se eu aumentar os salários da minha empresa sem alterar o custo de produção e o preço da mercadoria, realmente terei uma parcela maior das receitas destinada aos salários e uma redução nos lucros. Mas e um aumento generalizado dos salários?

Teremos um fenômeno interessante no curto prazo: a alteração na massa total de lucros da economia é zero. Sim, você leu certo: nada muda no lucro total da economia. O que acontece é o seguinte: o lucro será deslocado para os produtores de bens de consumo.

Grosso modo, podemos separar praticamente toda a economia em bens de consumo (e.g. alimentos, roupas, carros de passeio, geladeiras) e bens de capital (e.g. fornos siderúrgicos, retroescavadeiras, fogões industriais, câmaras frigoríficas). Podemos fazer o mesmo para serviços: apesar da distinção ser um pouco mais confusa, duvido que uma pessoa física contrataria uma consultoria de RH ou uma companhia de logística.

Evidentemente, todos esses setores pagam salários e seus assalariados compram bens de consumo (por simplicidade, vamos assumir que os serviços para usuário final estão inclusos). Podemos assumir também com uma margem considerável de confiança que a poupança dos assalariados é muito pequena, tanto em relação ao seu orçamento quanto em termos absolutos frente aos empresários. Assim, os trabalhadores da indústria de bens de serviço devolverão seus aumentos quase integralmente a esse setor. No entanto, os trabalhadores da indústria de bens de capital também gastarão seu aumento no mesmo setor. Assim, temos um deslocamento do lucro em direção ao setor de bens de consumo, mas a massa total de lucros da economia permanece inalterada.

Já é possível observar um fenômeno bem interessante: se os salários aumentaram e os lucros permaneceram constantes, isso significa que a renda, logo, o PIB dessa economia já se elevou em um primeiro momento. Dessa forma, não faz sentido dizer que o aumento de salários prejudica os lucros e a capacidade de investimento de uma economia, a menos que eles tornem a contratação proibitiva.

Mas pouco tempo depois podemos perceber uma nova mudança. Os produtores de bens de consumo, atentos aos seus lucros crescentes, decidem investir na expansão da produção devido ao estímulo positivo nas vendas, e esse processo se torna mais fácil com o aumento dos lucros: afinal de contas, é mais fácil investir com capital próprio que com financiamentos. Assim, esses produtores aumentam a receita do setor de bens de capital, que recebe um estímulo positivo para ampliar sua produção. Por fim, o aumento generalizado na renda dos trabalhadores acaba incentivando toda a economia.

crescimento-economicoÉ importante notar que esse mecanismo não é uma panaceia: em primeiro lugar, a luta de classes está atuando a todo momento. Salários maiores dão aos trabalhadores uma participação maior no PIB. Em um primeiro momento isso não é um problema, porque empresário nenhum prefere uma participação maior em uma economia menor, que vai significar menos dinheiro no fim das contas. Mas isso pode acabar dando força aos sindicatos, unindo a classe trabalhadora, um movimento totalmente indesejável. Assim, mesmo com todos esses benefícios há uma relutância em aumentar os salários.

Esse caminho inevitavelmente esbarra em limitações ambientais. Para se manter em curso, é necessário haver crescimento constante da economia, caso contrário o setor de bens de capital vai à falência e o ciclo quebra. E isso implica em uma pressão crescente sobre os recursos naturais, que estão longe de ser infinitos. Mesmo se tivéssemos 100% de reciclagem, existe um limite de matéria-prima existente no planeta.

Também temos que notar que as necessidades das pessoas não são infinitas. A partir de um certo ponto os trabalhadores começarão a poupar quantidades cada vez maiores (e isso não é bom, ao contrário do que dizem por aí: explicarei adiante), o que fará o ciclo girar um pouco mais devagar e o processo começa a frear sozinho. É aí que entra o governo no modelo keynesiano, para gerar demanda adicional em momentos onde esse sistema não funciona sozinho. Também por isso defende-se a existência de serviços públicos: é necessário haver esse emprego dos fatores de produção independentemente da condição financeira da população.

2 – Produção gera renda, que é gasta comprando a produção. Logo, não há crise.

Esse princípio é conhecido na teoria econômica como Lei de Say, e é um dos pressupostos mais importantes da economia ortodoxa. Tal princípio implica que o dinheiro parado possui utilidade nenhuma e que ele sempre será gasto. Isso simplesmente não é verdade, e a Lei de Say é imprecisa (ou mesmo errada) em vários níveis.

Em primeiro lugar, a produção não gera renda. Pode gerar renda instantânea para os trabalhadores empregados na mesma, mas em termos agregados a geração de renda é zero, pois a mesma significa prejuízo por parte dos empresários. A renda só é gerada quando ocorre a venda dessa produção. Sem venda, sem renda. Para tal, cito Marx:

M — D. Primeira metamorfose da mercadoria ou venda. O salto do valor da mercadoria do corpo da mercadoria para o corpo do ouro é, como o designo noutro local, o salto mortal da mercadoria. Se ele falha, não é a mercadoria que estoira, mas é-o certamente o possuidor da mercadoria.

– O Capital, livro 1, capítulo 3, seção 2

Em seguida, não se gasta renda. Renda é um fluxo, uma entrada de dinheiro. O que se gasta é poder de compra, o estoque de valor que um agente econômico tem em seu poder. E esse gasto não necessariamente é integral: pode-se estocar dinheiro pelos motivos mais diversos. Alguns planejam gastar esse dinheiro no futuro, que pode ser muito distante ou mesmo nunca chegar e o dinheiro ficar parado até a morte dessa pessoa; outros gastam com coisas que não são a produção, como terrenos, ouro, moeda estrangeira e ativos financeiros (lembrando que, a menos que o ativo financeiro seja comprado no momento de abertura, ele é simplesmente revendido e nenhum centavo sequer é dirigido diretamente para produção ou consumo); e outros simplesmente decidem entesourá-lo porque acreditam, digamos, que o dinheiro sofrerá valorização no futuro e aquela quantia em dinheiro vivo será útil, ou não confiam em bancos.

Assim podemos ver que a Lei de Say está “meio errada” em absolutamente todos os pontos. E se é assim, o princípio como um todo está errado.

3 – Precisamos de poupança para ter crescimento econômico

Esse é o ponto que dá mais nó na cabeça de todo mundo, e curiosamente o que mais parece absurdo de todos. Já mostramos anteriormente que não realizar um consumo não significa disponibilizar o dinheiro para realizar investimentos devido a uma série de “furos” no sistema. Mas precisamos definir o que é investimento. Em termos econômicos, investimento é um conceito bastante específico: significa a compra de máquinas, equipamentos e instalações para a produção de bens e serviços (i.e. formação de capital fixo). Ou seja, comprar ações e terrenos não são investimentos, e sim aplicações.

poupanca-porcos

O investimento precisa de poupança para acontecer? NÃO! Ele pode acontecer por meio de capital próprio, por que não? O crédito também não depende exclusivamente de poupança. Raramente um banco tem dinheiro em caixa para pagar todos os depositantes e credores ao mesmo tempo, mas empresta o dinheiro do mesmo jeito. Se feito de forma responsável (o que é uma tarefa titânica, diga-se de passagem), o banco consegue criar dinheiro que não existe emprestando parte do dinheiro que tecnicamente não é dele e recebendo uma quantia maior de volta. Assim, o investimento não necessitou de poupança.

Na verdade, é o investimento que determina a poupança. Quando uma empresa decide investir, o produtor daquele bem de capital é pago. Podemos colocar esse acontecimento como o “início” do ciclo da renda. Ao receber esse dinheiro, ele está integrando completamente a poupança do sistema naquele momento. Quando esse dinheiro for gasto, ele passará a integrar a poupança do próximo nível de agentes econômicos, enquanto a parcela guardada constituirá a poupança do primeiro. Podemos repetir essa série infinitamente. Não existe mágica: é impossível aumentar o nível de investimento através da poupança. No momento que decidimos poupar, estamos tirando aquele dinheiro de circulação e diminuindo os fluxos posteriores. Mas quando ocorre o investimento esse montante aumenta. Vale lembrar que novos investimentos geralmente implicam em novos empregos e mais salários pagos, a menos que se trate de uma inovação tecnológica que diminua a necessidade de mão-de-obra. Sendo assim, é um contrassenso tentar aumentar o investimento parando de gastar.

Essa ideia é tão contraditória que contraria o próprio estímulo para o investimento: o aumento nas vendas. Se os agentes econômicos estão poupando, não estão consumindo, e assim não estão comprando. Logo, os empresários não estão vendendo e não têm motivos para investir e ampliar a produção. Quem em sã consciência produziria MAIS quando está vendendo pouco?

Espero poder ajudar vocês leitores com essas explicações básicas sobre os conceitos apresentados. Quem sabe agora não podemos ter respostas diferentes para aquilo que sempre repetem e fazem parecer tão verdadeiro? Se repetirem isso aí, já sabem: