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Discutindo algumas “verdades” sobre economia

Existem uma série de “verdades” que são vomitadas repetidas pela imprensa, por comentaristas, leigos e até mesmo por economistas, recebem aval e via de regra não são questionadas na maioria dos meios de comunicação. Mas quanto disso se sustenta com uma análise mais profunda?

Como diz um professor meu, tenho a impressão que as pessoas sabem economia e acabam na verdade “desaprendendo” com tudo isso. É tanta merda que falam por aí…

Antes de mais nada, preciso dizer que muito disso vem da dificuldade de se raciocinar de forma agregada. No meu breve contato com a macroeconomia tive uma certa dificuldade para entender certos conceitos, e isso vem do fato que visualizamos muito bem situações localizadas (e.g. as finanças de um indivíduo ou uma empresa), mas pensar em todo um agregado econômico não é uma tarefa fácil. E como estamos falando de macroeconomia básica, obviamente essa explicação se baseia quase integralmente nas obras de Keynes e Kalecki.

Sendo assim, decidi fazer um texto bem simples para debater alguns desses conceitos e mostrar uma outra visão sobre eles.

1 – Salários e lucros são antagônicos

Em uma escala micro, realmente são. Se eu aumentar os salários da minha empresa sem alterar o custo de produção e o preço da mercadoria, realmente terei uma parcela maior das receitas destinada aos salários e uma redução nos lucros. Mas e um aumento generalizado dos salários?

Teremos um fenômeno interessante no curto prazo: a alteração na massa total de lucros da economia é zero. Sim, você leu certo: nada muda no lucro total da economia. O que acontece é o seguinte: o lucro será deslocado para os produtores de bens de consumo.

Grosso modo, podemos separar praticamente toda a economia em bens de consumo (e.g. alimentos, roupas, carros de passeio, geladeiras) e bens de capital (e.g. fornos siderúrgicos, retroescavadeiras, fogões industriais, câmaras frigoríficas). Podemos fazer o mesmo para serviços: apesar da distinção ser um pouco mais confusa, duvido que uma pessoa física contrataria uma consultoria de RH ou uma companhia de logística.

Evidentemente, todos esses setores pagam salários e seus assalariados compram bens de consumo (por simplicidade, vamos assumir que os serviços para usuário final estão inclusos). Podemos assumir também com uma margem considerável de confiança que a poupança dos assalariados é muito pequena, tanto em relação ao seu orçamento quanto em termos absolutos frente aos empresários. Assim, os trabalhadores da indústria de bens de serviço devolverão seus aumentos quase integralmente a esse setor. No entanto, os trabalhadores da indústria de bens de capital também gastarão seu aumento no mesmo setor. Assim, temos um deslocamento do lucro em direção ao setor de bens de consumo, mas a massa total de lucros da economia permanece inalterada.

Já é possível observar um fenômeno bem interessante: se os salários aumentaram e os lucros permaneceram constantes, isso significa que a renda, logo, o PIB dessa economia já se elevou em um primeiro momento. Dessa forma, não faz sentido dizer que o aumento de salários prejudica os lucros e a capacidade de investimento de uma economia, a menos que eles tornem a contratação proibitiva.

Mas pouco tempo depois podemos perceber uma nova mudança. Os produtores de bens de consumo, atentos aos seus lucros crescentes, decidem investir na expansão da produção devido ao estímulo positivo nas vendas, e esse processo se torna mais fácil com o aumento dos lucros: afinal de contas, é mais fácil investir com capital próprio que com financiamentos. Assim, esses produtores aumentam a receita do setor de bens de capital, que recebe um estímulo positivo para ampliar sua produção. Por fim, o aumento generalizado na renda dos trabalhadores acaba incentivando toda a economia.

crescimento-economicoÉ importante notar que esse mecanismo não é uma panaceia: em primeiro lugar, a luta de classes está atuando a todo momento. Salários maiores dão aos trabalhadores uma participação maior no PIB. Em um primeiro momento isso não é um problema, porque empresário nenhum prefere uma participação maior em uma economia menor, que vai significar menos dinheiro no fim das contas. Mas isso pode acabar dando força aos sindicatos, unindo a classe trabalhadora, um movimento totalmente indesejável. Assim, mesmo com todos esses benefícios há uma relutância em aumentar os salários.

Esse caminho inevitavelmente esbarra em limitações ambientais. Para se manter em curso, é necessário haver crescimento constante da economia, caso contrário o setor de bens de capital vai à falência e o ciclo quebra. E isso implica em uma pressão crescente sobre os recursos naturais, que estão longe de ser infinitos. Mesmo se tivéssemos 100% de reciclagem, existe um limite de matéria-prima existente no planeta.

Também temos que notar que as necessidades das pessoas não são infinitas. A partir de um certo ponto os trabalhadores começarão a poupar quantidades cada vez maiores (e isso não é bom, ao contrário do que dizem por aí: explicarei adiante), o que fará o ciclo girar um pouco mais devagar e o processo começa a frear sozinho. É aí que entra o governo no modelo keynesiano, para gerar demanda adicional em momentos onde esse sistema não funciona sozinho. Também por isso defende-se a existência de serviços públicos: é necessário haver esse emprego dos fatores de produção independentemente da condição financeira da população.

2 – Produção gera renda, que é gasta comprando a produção. Logo, não há crise.

Esse princípio é conhecido na teoria econômica como Lei de Say, e é um dos pressupostos mais importantes da economia ortodoxa. Tal princípio implica que o dinheiro parado possui utilidade nenhuma e que ele sempre será gasto. Isso simplesmente não é verdade, e a Lei de Say é imprecisa (ou mesmo errada) em vários níveis.

Em primeiro lugar, a produção não gera renda. Pode gerar renda instantânea para os trabalhadores empregados na mesma, mas em termos agregados a geração de renda é zero, pois a mesma significa prejuízo por parte dos empresários. A renda só é gerada quando ocorre a venda dessa produção. Sem venda, sem renda. Para tal, cito Marx:

M — D. Primeira metamorfose da mercadoria ou venda. O salto do valor da mercadoria do corpo da mercadoria para o corpo do ouro é, como o designo noutro local, o salto mortal da mercadoria. Se ele falha, não é a mercadoria que estoira, mas é-o certamente o possuidor da mercadoria.

– O Capital, livro 1, capítulo 3, seção 2

Em seguida, não se gasta renda. Renda é um fluxo, uma entrada de dinheiro. O que se gasta é poder de compra, o estoque de valor que um agente econômico tem em seu poder. E esse gasto não necessariamente é integral: pode-se estocar dinheiro pelos motivos mais diversos. Alguns planejam gastar esse dinheiro no futuro, que pode ser muito distante ou mesmo nunca chegar e o dinheiro ficar parado até a morte dessa pessoa; outros gastam com coisas que não são a produção, como terrenos, ouro, moeda estrangeira e ativos financeiros (lembrando que, a menos que o ativo financeiro seja comprado no momento de abertura, ele é simplesmente revendido e nenhum centavo sequer é dirigido diretamente para produção ou consumo); e outros simplesmente decidem entesourá-lo porque acreditam, digamos, que o dinheiro sofrerá valorização no futuro e aquela quantia em dinheiro vivo será útil, ou não confiam em bancos.

Assim podemos ver que a Lei de Say está “meio errada” em absolutamente todos os pontos. E se é assim, o princípio como um todo está errado.

3 – Precisamos de poupança para ter crescimento econômico

Esse é o ponto que dá mais nó na cabeça de todo mundo, e curiosamente o que mais parece absurdo de todos. Já mostramos anteriormente que não realizar um consumo não significa disponibilizar o dinheiro para realizar investimentos devido a uma série de “furos” no sistema. Mas precisamos definir o que é investimento. Em termos econômicos, investimento é um conceito bastante específico: significa a compra de máquinas, equipamentos e instalações para a produção de bens e serviços (i.e. formação de capital fixo). Ou seja, comprar ações e terrenos não são investimentos, e sim aplicações.

poupanca-porcos

O investimento precisa de poupança para acontecer? NÃO! Ele pode acontecer por meio de capital próprio, por que não? O crédito também não depende exclusivamente de poupança. Raramente um banco tem dinheiro em caixa para pagar todos os depositantes e credores ao mesmo tempo, mas empresta o dinheiro do mesmo jeito. Se feito de forma responsável (o que é uma tarefa titânica, diga-se de passagem), o banco consegue criar dinheiro que não existe emprestando parte do dinheiro que tecnicamente não é dele e recebendo uma quantia maior de volta. Assim, o investimento não necessitou de poupança.

Na verdade, é o investimento que determina a poupança. Quando uma empresa decide investir, o produtor daquele bem de capital é pago. Podemos colocar esse acontecimento como o “início” do ciclo da renda. Ao receber esse dinheiro, ele está integrando completamente a poupança do sistema naquele momento. Quando esse dinheiro for gasto, ele passará a integrar a poupança do próximo nível de agentes econômicos, enquanto a parcela guardada constituirá a poupança do primeiro. Podemos repetir essa série infinitamente. Não existe mágica: é impossível aumentar o nível de investimento através da poupança. No momento que decidimos poupar, estamos tirando aquele dinheiro de circulação e diminuindo os fluxos posteriores. Mas quando ocorre o investimento esse montante aumenta. Vale lembrar que novos investimentos geralmente implicam em novos empregos e mais salários pagos, a menos que se trate de uma inovação tecnológica que diminua a necessidade de mão-de-obra. Sendo assim, é um contrassenso tentar aumentar o investimento parando de gastar.

Essa ideia é tão contraditória que contraria o próprio estímulo para o investimento: o aumento nas vendas. Se os agentes econômicos estão poupando, não estão consumindo, e assim não estão comprando. Logo, os empresários não estão vendendo e não têm motivos para investir e ampliar a produção. Quem em sã consciência produziria MAIS quando está vendendo pouco?

Espero poder ajudar vocês leitores com essas explicações básicas sobre os conceitos apresentados. Quem sabe agora não podemos ter respostas diferentes para aquilo que sempre repetem e fazem parecer tão verdadeiro? Se repetirem isso aí, já sabem:

Por que ter medo de rótulos?

Não sei se vocês lembram, mas há bastante tempo eu fiz um post sobre a necessidade de algumas pessoas pertencerem a grupos. Mas o que eu tenho percebido é a tendência contrária: as pessoas têm apresentado um medo irracional de ser rotuladas.

Vamos primeiro tentar entender como funcionam os rótulos. Eles acontecem de forma bastante natural: você precisa entender com quem está lidando, qual o conjunto de regras e premissas das quais a pessoa parte. Para fazer isso, você precisa de uma amostra da opinião da pessoa, que é apresentada em um debate. A partir disso, acabamos traçando uma tendência, que nos permite prever alguns posicionamentos com uma confiabilidade interessante (principalmente quando obtemos mais experiência em debates).

Precisamos dar nome aos bois, e foram concebidas ao longo da história centenas de correntes ideológicas para isso, e é assim que surgem os rótulos. Eles não são totalmente arbitrários e necessariamente maléficos, como alguns têm assumido recentemente. Têm seu motivo de ser: ideologias são baseadas em sequências lógicas, as conclusões são extraídas em série umas das outras de acordo com um conjunto de partida de conhecimentos, premissas e regras. Assim, quando uma pessoa começa a se aproximar bastante de uma corrente ideológica, é muito provável que acabe seguindo bastante alinhada com esse raciocínio. Principalmente porque não existimos no vácuo, praticamente todos fomos expostos à maioria das correntes ideológicas existentes e acabamos usando-as como base argumentativa e ponto de partida, mesmo sem saber.

Os rótulos têm seu lado ruim? SIM!!! Às vezes extrapolamos esse mecanismo de traçar tendências e passamos a colocar pessoas à força em rótulos, exigir lealdade a uma causa de alguém que nunca a prometeu em primeiro lugar, assumir posicionamentos que não foram revelados e se mostram falsos (construindo sem querer um espantalho da pessoa). Também podem levar pessoas a se fecharem em seus rótulos, se auto-sugestionarem a aceitar um pacote de ideologia por completo, rejeitarem influências externas e fazerem vista grossa para os próprios erros, disparando um fanatismo ideológico. Mas rótulos são intrinsecamente ruins? Não. Assim como ideologias não são ruins por si só.

Por que ter medo de rótulos?

Por que ter medo de rótulos?

No geral, rótulos não passam de tentativas de identificar o interlocutor, “reconhecer o terreno” da discussão, conhecer as premissas e os posicionamentos de todos .

E o que está ficando mais ridículo em todas essas discussões, nesse medo irracional de rótulos, é que não podemos mais apontar essas tendências. Parece que somos proibidos de rotular, como se isso fosse uma ofensa gravíssima!

Pense no seguinte cenário: uma pessoa apresenta consistentemente toda a lógica argumentativa associada a um certo rótulo, a ponto de ter até os mesmos argumentos que essas pessoas. E vamos mais a fundo: esse rótulo nem representa uma ideologia per se, e sim um comportamento presente no senso comum (e bastante indesejável ultimamente, diga-se de passagem). Como a pessoa quer o direito de, frente a tudo isso, ainda sim não ser rotulada?

Suponhamos que se trate de alguém que fez vários comentários racistas. A pessoa começou falando contra as cotas, defendendo “meritocracia”, dizendo que cotas são medidas racistas. Depois seguiu para dizer que não há necessidade de políticas públicas contra o racismo, que tudo isso é discriminação contra o branco, que “orgulho negro” e “orgulho branco” são a mesma coisa. A seguir, colocou que nunca viu negros ocupando lugares de relevância e atribuiu isso ao próprio negro, e não ao seu contexto. E para fechar com chave de cocô, se justificou dizendo que “não é racista e até tem amigos negros”. Mas se incomoda se eu disser que é racista, diz que eu acuso todas as pessoas que discordam de mim e que estou tentando padronizar o pensamento. Faz algum sentido?

Assim, devemos tomar cuidado tanto em discriminar quem participa de grupo nenhum quanto em detestar todos os rótulos. Até porque não tem jeito: você vai ganhar o rótulo de “do contra”, vai ser rotulado como “a pessoa que odeia rótulos”. E aí, como fica?

Se preferir, tem esse rótulo aqui. E milhares de outros também!

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