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Se dê ao respeito!

As pessoas precisam aprender a se dar ao respeito. E isso nada tem a ver com o que geralmente é dito sobre respeito.

Dar-se ao respeito é respeitar a si mesmo: suas vontades, seus gostos, seu estilo, suas opiniões. É respeitar o seu próprio ritmo, suas próprias capacidades, não fazer mais ou menos que isso apenas por pressões exteriores. É não se deixar abalar pela patrulha alheia, não se curvar aos desejos daqueles que buscam controlar os outros, principalmente sob o pretexto de “ser respeitado”. Aquele que exige um certo comportamento para “ser respeitado” é de fato quem mais desrespeita o próximo.

Seja como a Jack, de Mass Effect. Ela é careca. Ela é tatuada. Ela fala palavrão. E nada disso é da sua conta.

Vivemos em um mundo onde o respeito deve ser conquistado, e isso não pode ser feito pela submissão. O respeito nasce da auto-afirmação, da força do indivíduo. Aquele que se curva só para ganhar respeito é uma pessoa quebrada, que não pode reagir e que, aos olhos do mundo, passa a mensagem de que pode ser usada. A forma de quebrar isso é pela auto-afirmação, pela certeza de quem a pessoa é, principalmente a certeza de que é um indivíduo em constante transformação, pela tomada do controle de suas próprias decisões e de seus próprios desejos.

Mas obviamente esse é só um lado da moeda. Outra máxima, talvez mais importante que tudo que foi dito antes, é: RESPEITE PARA SER RESPEITADO! Teríamos um ambiente muito mais tranquilo e habitável se não houvesse a constante tentativa de quebrar as outras pessoas. Mas infelizmente temos que aprender a sobreviver neste mundo enquanto tentamos construir outro. E para podermos fazer isso, temos que aprender a nos respeitar antes de mais nada.

Esse é o verdadeiro exemplo de se dar ao respeito!

Um tiro no pé do ateísmo

Hoje vi este post do Consciencia.blog.br no Bule Voador, e achei bastante interessante. Explora de forma mais genérica um ponto que eu tinha comentado neste outro post aqui há alguns meses atrás: a forma como a agressividade da militância ateísta prejudica a própria luta pela liberdade religiosa. Muito já foi dito nesse post, gostaria de fazer este aqui mais para complementar o assunto mesmo e trazer minhas impressões.

Como já foi dito, vem crescendo dentro dos movimentos ateístas a provocação gratuita aos religiosos, que contribui em nada para um ambiente mais pacífico e tolerante, pelo contrário, pode fazer as pessoas terem mais raiva dos ateus por os considerarem intolerantes, implicantes, arrogantes, donos da verdade. E infelizmente não podemos nos defender com a posição (coberta de razão, diga-se de passagem) de que você não pode julgar uma pessoa pelas atitudes do grupo onde ela está inserida. O problema é que esse tipo de julgamento, justamente aquele que por definição se chama PRECONCEITO e é justamente o que procuramos combater, não é uma postura racional; logo, não podemos cobrar tão facilmente a postura racional de julgar um indivíduo pelas suas ações e não pelas ações de seus “semelhantes”. Reforço: essa demanda está COBERTA DE RAZÃO, e julgar uma pessoa pelo seu grupo continua TOTALMENTE ERRADO!!!

E mais: concordo com uma opinião que já ouvi, de que um dos focos da luta contra o preconceito deveria ser combater a própria ideia de preconceito, de julgar pessoas pela sua “categoria”, que criticar atitudes negativas do seu grupo seria, de uma certa forma, combater o sintoma e não a doença. Mas não podemos ser tão puristas e idealistas assim: é preciso ter uma visão mais pragmática e estratégica. Enquanto uns continuam se divertindo ridicularizando as religiões e seus praticantes, outros continuarão sendo julgados por tabela e pagando o pato.

 

Mas é mais grave ainda: algumas das críticas feitas às religiões são falaciosas, e até mesmo MENTIROSAS. Oras, algumas das maiores críticas às religiões não são a desinformação, a manipulação, a desonestidade intelectual de seus apologistas? Aderir à mesma postura deplorável é tornar-se tão ruim quanto eles, ou até pior, e para isso não há desculpas: comportamentos assim devem ser duramente criticados a todo momento. Esta série de posts do Consciencia.blog.br procura desmascarar a desinformação passada em certas campanhas ateístas. Não li tudo, mas gostei do que vi.

Certas críticas, embora possam ser consideradas meias verdades, contêm um mesmo erro grave: consideram que todas as religiões são como as abraâmicas, que todas motivam guerras, repressão, racismo, sexismo e outros males bastante presentes nas religiões citadas (e há de se convir que mesmo não praticados pelos seus adeptos atualmente, e as vezes nem mesmo pelos próprios líderes, foram endossados ao longo de suas histórias e muitas vezes continuam presentes em seus textos sagrados, apesar de todo o malabarismo intelectual de seus seguidores mais moderados para esconder isso).

Nunca vimos guerras religiosas sendo causadas por espíritas, taoistas, animistas, sikhs ou umbandistas, entre outros. E não podemos afirmar que eles só não fizeram isso porque não conseguiram poder para tal enquanto não tivermos evidências de que seus líderes têm vontade de fazer isso um dia: seria uma falácia do declive escorregadio.

Também vemos na história uma tolerância religiosa razoável por parte da Pérsia zoroastra, e desconheço casos de religiões pagãs de alguns povos europeus antigos, como os celtas e os bálticos (da atual Lituânia) vitimando seguidores de outras religiões. Pelo contrário: apenas conheço o fato desses povos terem sofrido perseguição religiosa por parte de romanos e de cristãos. Além disso, existem e existiram religiões onde a mulher não era rebaixada, sendo até mesmo exaltada em alguns casos, como no Egito antigo. Óbvio que isso não isenta essas religiões de outros problemas: grande parte das religiões antigas, genericamente denominadas pagãs, realizavam sacrifícios humanos, e o misticismo de seus cultos deve ter resultado em obscurantismo várias vezes (não posso afirmar, não tenho muito conhecimento sobre a história desses povos).

 

O texto fecha levantando uma hipótese: de que esses ateus na verdade praticam revanchismo. E se isso for verdade (e não duvido que seja), é algo muito grave: significa que esse ciclo não vai mais acabar, que vamos continuar odiando uns aos outros. É isso mesmo que vocês querem? Continuar brigando, ofendendo, atacando gratuitamente, “converter” as pessoas ao ateísmo, mostrar o quanto você deseja que todas as religiões sejam extintas? Porque se o que desejam é respeito, o fim do preconceito, não serem julgados pela sua cosmovisão, esse não é o caminho. E não vejo como uma cruzada anti-religiosa pode dar certo, nem como os males da religião estão imunes de ser substituídos por doutrinas seculares como o ultra-nacionalismo (que não é necessariamente de cunho religioso, muito menos atualmente) ou regimes totalitários como o stalinismo.