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A faculdade é a melhor fase da vida? Espero que não.

Essa é uma frase que você ouve direto quando você é universitário: “esta é a melhor fase da sua vida”. Estive pensando sobre isso e cheguei a conclusão de que se isso for verdade, na verdade é uma má notícia.

Uma vez um chefe escoteiro disse para a gente que a adolescência não é a melhor fase da vida, porque isso significaria que a nossa vida nunca mais seria tão boa. Percebem como é um pensamento deprimente? Eu vou mais além e digo que não existe a “melhor fase da vida”. Todas são boas de sua forma particular, são experiências muito diferentes. É como comparar batata frita e My Little Pony.

Vamos encarar os fatos: a faculdade não é tão boa assim porque não tem bronies em todo lugar..

Vamos encarar os fatos: a faculdade não é tão boa assim porque não tem bronies em todo lugar. Imagina uma cama assim na sua república?

Talvez a universidade seja a melhor fase da vida porque é o momento em que você descobre a área do conhecimento pela qual se interessa, porque é o período mais fácil para morar com seus amigos (coisa que nunca me chamou a atenção, diga-se de passagem), porque tem as melhores festas, porque você tem boa parte da liberdade sem precisar trabalhar. Mas sabe que isso nem sempre é a melhor coisa do mundo?

Eu já trabalhei e sinto falta. Sinto falta do ambiente de trabalho (ter colegas de trabalho, de preferência todos com dinheiro, é uma experiência bastante peculiar), de poder comprar coisas com o meu trabalho, que é algo muito gratificante. A liberdade da vida universitária é parcial: o dinheiro é curto e você ainda deve algum tipo de satisfação a alguém por ele, por melhor que seja essa pessoa.

Tem coisas muito pessoais que me irritam bastante na minha vida atual. Ainda não sou um adulto completo, ainda sinto muitas angústias da adolescência. Tenho alguns problemas de relacionamento, me sinto inseguro e com baixa auto-estima quanto a minha ~vida amorosa~, mesmo sabendo que as pessoas têm isso em todas as idades eu ainda acho que muito tem a ver com eu ser jovem. Eu já melhorei bastante nesse quesito, já me sinto um pouco mais tranquilo e me parece que tenho campo para melhorar. Ser jovem em grande parte significa não estar certo sobre sua própria vida, sobre sua identidade, ter uma certa angústia, não conseguir estar em paz. Parece que a crise da meia-idade é quase a mesma coisa, mas enfim…

No geral, o que eu sinto é que cada fase da minha vida é melhor que a anterior. Estou cada vez mais contente com a minha idade, com as minhas novas responsabilidades (menos arrumar a casa, essa não desce mesmo, desculpa sociedade), com o rumo que minha vida parece tomar. Alguns “retrocessos” aparecem, mas sempre que penso melhor sobre isso eles parecem ser momentâneos.

Se eu posso concluir alguma coisa sobre esse assunto, é o seguinte: não existe “melhor fase da vida”. E pelo visto, cada fase é melhor que a anterior.

Você sabe o que é capital cultural?

Desde que escrevi meus posts sobre educação continuei me envolvendo em discussões sobre cotas, e me mostraram um ponto bastante importante em toda a discussão educacional que eu desconhecia: o capital cultural. O vídeo a seguir explica muito bem, de forma bastante didática e com exemplos, o que é este conceito.

Somente agora, um bom tempo depois de tomar conhecimento do capital cultural, percebi como essa discussão está intimamente ligada à questão das cotas e inclusive serve como contra-argumento ao lugar comum “as cotas dizem que o negro é incapaz de fazer a prova”.

Primeiramente, temos que lembrar que a lei atual do sistema de cotas tem um caráter acima de tudo social ao colocar baixa renda e ter frequentado o ensino público como requisitos para ingressar no programa; e é bastante óbvio que rendas mais elevadas permitem um acesso melhor à cultura dominante, ao que se considera “cultura boa” na sociedade e, por extensão, na escola. Mas também podemos perceber que o fator racial cria um abismo ainda maior, porque negros em geral estão submetido à pobreza mais extrema e aos espaços geográficos menos favoráveis ao acesso desse tipo de cultura. Mesmo em eventos culturais populares (e.g. semana de divulgação do teatro, dias gratuitos ou com desconto em museus) e entre as pessoas de baixa renda os negros e pardos continuam sendo minoria.

Assim, como explicado no vídeo, é cada vez mais difícil acompanhar a educação em um contexto desses. Aquilo que é passado na sala de aula parece de outro mundo, enquanto a cultura que o aluno conhece e que faz parte de sua vida é ignorada e desprezada no plano de ensino. E muitas vezes o próprio professor agrava esse quadro com seu despreparo, trazendo seus preconceitos para a sala de aula, se deparando com uma situação que ele desconhece, perpetuando uma mecânica de dominação cultural da qual ele não tem consciência. Desta forma o professor muitas vezes perde a paciência, desanima ou mesmo considera o aluno incapaz, já que não entende por que é tão difícil para ele.

O sistema de cotas, além de medida paliativa para reduzir o abismo social e introduzir pessoas de contextos diferentes no meio acadêmico e em profissões qualificadas, pode trazer a tona o meio onde os mesmos cresceram, colocá-lo em evidência e tornar a discussão acadêmica mais próxima da realidade popular. Podemos ter no futuro, por exemplo, artistas graduados levando a arte popular para os meios elitizados ou pedagogos que passaram por essas dificuldades e decidem propor modelos novos para superar esse problema da educação no futuro.

Considerações sobre a educação brasileira (Parte 1)

Ultimamente houve vários acontecimentos a respeito da educação brasileira, principalmente em relação à nova lei de ações afirmativas no processo seletivo das universidades. Isso me levou a uma série de reflexões sobre a educação. Demorei muito para escrever este post, mas acho que mesmo assim é válido.

Parte 1: Por que sou a favor do sistema de cotas

Sempre que abordamos esse tema, devemos lembrar que o preconceito surge do desconhecimento. Quando não conhecemos determinado grupo da sociedade, automaticamente preenchemos essa lacuna com o senso comum veiculado no nosso meio. Assim, somos levados de forma inconsciente a acreditar que negros provavelmente são mais pobres, mais propensos à marginalidade e por isso menos confiáveis ou desejáveis que brancos. No momento em que existe a convivência entre negros e brancos, há a possibilidade de conhecimento entre as duas populações e consequentemente a quebra de mitos a respeito do antes desconhecido.

Sendo assim, isso justificaria um critério racial, e não apenas social. E negar a existência de raças (um critério fictício do ponto de vista objetivo, mas que infelizmente apresenta-se como fato social) não resolve o problema, apenas joga-o para baixo do tapete. Forçar essa convivência entre as raças é a forma de desconstruir a distinção racial dentro da nossa sociedade.

É fato que negros ganham menos que brancos em cargos equivalentes no mercado de trabalho. Brancos são automaticamente vistos como mais qualificados e com melhores condições de vida. Negros e pardos precisam provar o contrário quando a situação se inverte, porque a norma dentro da nossa sociedade é apresentar o negro e o pardo na base da pirâmide social. Oferecendo melhores condições de instrução para o negro e o pardo, podemos vê-los em cargos melhores no mercado de trabalho, competindo com brancos e desconstruindo o mito do negro subalterno. Este é um processo de longo prazo, e é previsível que os primeiros egressos do sistema de cotas sofrerão com salários menores e planos de carreira menos favoráveis em relação aos seus colegas brancos.

Um detalhe muito importante a ser lembrado na redação do novo projeto de lei do sistema de cotas é o fato delas serem um misto de raciais e sociais. Em primeiro lugar, é necessário ter cursado o ensino médio em colégio público: os negros ricos estão assim automaticamente excluídos do processo. Segundo, o branco pobre não está excluído: metade das vagas do programa funciona em um sistema livre de critérios raciais, tendo como pré-requisito apenas o ensino público e assim contemplando também os brancos pobres.

Mesmo assim, ainda é válida uma crítica: de que esse sistema não resolverá de fato o problema da desigualdade e que o investimento em educação básica é imprescindível. É bastante possível que o sistema de cotas tenha motivação eleitoreira e encubra a falta de investimentos em educação. Por esse motivo, a pressão popular deve ser a favor da educação básica, e não contra o sistema de cotas.

Por último, é importante lembrar que a experiência com o sistema de cotas vem se mostrando positiva, visto que os alunos cotistas apresentam desempenho igual ou superior ao de seus colegas não-cotistas. E isso já deixa o gancho para a parte 2 da minha análise sobre a educação.